domingo, 4 de novembro de 2012

CONVERSA FRANCA

Quando você pensa que é uma pessoa resolvida, esclarecida, fez duas faculdades, uma pós-graduação, entende de arte, política e cozinha, é aí que compreende que esteve enganado, muito enganado, sobre sua própria inteligência.

Um dia no novo trabalho, o primeiro, você é a pessoa que sabe menos sobre o exercício do novo ofício. E se depender do colega aí do lado, vai continuar sendo por muito tempo. Ninguém quer gente como você. Sempre soubemos disso, aí vem as expectativas de um novo emprego, novos aprendizados, desafios, e deixamos as certezas de lado e partimos para a briga. Mas a luta cansa. Tirar informação de alguém é quase como um dia inteiro de caminhada, usando sapatos apertados, debaixo de sol quente, sem água, comida, ou um saquinho de bolha.

Quando chega em casa, está assim, sentindo-se um lixo, um qualquer de inteligênciazinha medíocre, que não consegue mais concatenar duas informações simples, pois é claro, quando você quis saber do tal novo índice para concluir sua apresentação, todos lhe responderam prontamente com expressões: “É uma apresentação muito importante.”, “A economia muda muito.”, e todos mesmo tiveram sua contribuição para a dúvida que pairava em sua cabeça. Ah, sim, a dúvida agora está bem maior.

Segundo mês no novo trabalho, você ainda não sabe tudo o que deveria saber. E se depender do colega aí do lado, vendo slides de auto-ajuda, com ursinhos fofinhos e frases distorcidas, atribuídas à Fernando Pessoa, vai continuar assim por muito mais tempo. Seu chefe o chama em sua sala, na sala dele, do chefe, para não ter ambiguidades aqui. O chefe cobra o seu trabalho. Afinal, você teve um instrutor, um cara que está se esforçando para fazer de você um outro dele, porém um modelo mais avançado, mais esperto, mais eficiente, porque as expectativas são de que você supere todos! Todos!

O chefe continua a cobrança, ele se irrita, grita: quem você pensa que é para fazer corpo mole? “A porta da rua é a serventia de quem está incomodado”, como diria minha amiga lá da recepção. Ele gesticula, grita mais alto e, no fim, você está despedido! Você não tem o que fazer. Vai para casa. Atualiza o currículo. Amanhã sairá bem cedo a procura de outro emprego. Talvez ache um que aceite suas pobres limitações.

Concordo plenamente, esse final não foi tão dramático quanto o do Sidney, mas estou tentando. Um dia chego lá.
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3 comentários:

  1. Estava sentindo falta de seus contos.
    bj
    Rose

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  2. Nina,
    Parabéns pelo seu conto. O tema é o mesmo, porém o infoque é mui particular. È isso aí ! O pensamento tem tantas vertentes eis o "porquê" de ser o pensamento infinito.
    Um abraço. Se puder acesse meu blog sidneytito.blogspot.com

    Ficarei muitíssimo feliz !! Valeu !!!

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  3. Fiquei lisonjeado pela sua visita ao meu blog sidneytito.bloggspot.com
    Valeu !!!
    Caso queira postar artigos do blog, fique à vontade: ele é nosso e do mundo.Bjs

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