segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

DIÁLOGO DA RELATIVA GRANDEZA

(...)

Doril não disse mais nada, qualquer coisa que ele dissesse ela aproveitaria para outra acusação. Era difícil tapar a boca de Diana, ô menina renitente. Ele preferiu continuar olhando o louva-a-deus. Soprou-o de leve, ele encolheu-se e vergo o corpo para o lado do sopro, como faz uma pessoa na ventania. O louva-a-deus estava no meio de uma tempestade de vento, dessas que derrubam árvores e arrancam telhados e podem até levantar uma pessoa do chão. Doril era a força que mandava a tempestade e que podia pará-la quando quisesse. Então ele era Deus? Será que as nossas tempestades também são brincadeiras? Será que quem manda elas olha para nós como Doril estava olhando para o louva-a-deus? Será que somos pequenos para ele como um gafanhoto é pequeno para nós, ou menores ainda? De que tamanho, comparando – do de formiga? De piolho de galinha? Qual será o nosso tamanho mesmo, verdadeiro?

Doril pensou, comparando as coisas em volta. Seria engraçado se as pessoas fossem criaturinhas miudinhas, vivendo num mundo miudinho, alumiados por um sol do tamanho de uma rodela de confete...

Diana lambendo os dedos e enxugando no vestido. Qual seria o tamanho certo dela? Um palmo de cabeça, um palmo de peito, palmo e meio de barriga, palmo e meio até o joelho, palmo e meio até o pé... uns seis palmos e meio. Palmo de quem? Gafanhoto pode ter seis palmos e meio também – mas de gafanhoto. Formiga pode ter seis palmos e meio – de formiga. E os bichinhos que existem mas a gente não vê, de tão pequenos? Se tem bichos que a gente não vê, não pode ter bichos que esses que a gente não vê não veem? Onde é que o tamanho dos bichos começa e onde acaba? Qual é o maior, e qual o menor? Bonito se nós também somos invisíveis para outros bichos muito grandes, tão grandes que os nossos olhos não abarcam? E se a Terra é um bicho grandegrandegrandegrande e nós somos pulgas dele? Mas não pode! Como é que vamos ser invisíveis, se qualquer pessoa tem mais de um metro de tamanho?

Doril olhou o muro, os cafezeiros, as bananeiras, tudo bem maior do que ele, uma bananeira deve ter mais de dois metros...

Aí ele notou que o louva-a-deus não estava mais na mão. Procurou por perto e achou-o pousado num pau de lenha, numa ponta coberta de musgo. Doril levantou o pau devagarinho, olhou-o de perto e achou que a camada de musgo lembrava um matinho fechado, com certeza cheio de...

― Quando é que você vai deixar esse bichinho sossegado? Tamanho homem!

Doril largou o pau devagarinho no monte, limpou as mãos na roupa.

― Você não sabe qual é o meu tamanho.

Ela olhou-o desconfiada, com medo de dizer uma coisa e cair em alguma armadilha, Doril estava sempre arranjando novidades para atrapalhá-la.

― Você nem sabe qual é o seu tamanho – insistiu ele.

― Então não sei? Já medi e marquei com um carvão atrás da porta da sala. Pode olhar lá, se quiser.

Ele sorriu da esperada ingenuidade.

― Isso não quer dizer nada. Você não sabe o tamanho da marca.

― Sei. Mamãe mediu com a fita de costura. Diz que tem um metro e vinte e tantos.

― Em metro de anão. Ou metro invisível.

Ela olhou-o assustada, desconfiada; e não achando o que responder, desconversou:

― Ih, Doril! Você está bobo hoje!

(...)
(Trecho de Diálogo da Relativa Grandeza, de José J. Veiga, em A Estranha Máquina Extraviada)

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

APAIXONAR-SE

Sabem o que o dicionário diz a respeito da paixão? De curiosidade fui lá ver. Dentre as definições, estava: “Perturbação ou movimento desordenado do ânimo.” Concordei instantaneamente. Sem discussão. É isso e pronto. Nada de processo químico, nada de estado da alma. Nem poeta nem cientista. Não mesmo. Quem tem razão é o dicionário, é claro.

Quer algo mais lógico na face da Terra do que se apaixonar por alguém? É só fazer as contas de quanto tempo acumulamos sentindo falta da outra pessoa, quantas vezes queremos ver, ouvir e sentir essa pessoa; calcular as probabilidades de agradá-la, a rotina sozinho passa a ser menos, menos interessante, menos desejada, menos praticada.


Ah, mas aí vocês irão dizer: não, isso não é paixão, é amor. Certo, certo. Mudou de nome o assunto. Voltemos ao dicionário: “Sentimento que induz a aproximar, a proteger ou a conservar a pessoa pela qual se sente afeição ou atração.” Pronto! Agora sim, não dá mais para se ter certeza de nada. Está tudo perdido. Nós não temos mais salvação. Acabou!

Só resta nos resignar à inexplicável capacidade de sentir e não dizer, apesar de quase todo mundo só acreditar que algo exista se for verbalizado. Só que essa questão vai ficar assim mesmo, sem corpo, sem som, sem nada, como “uma casa, muito engraçada”, que nos abriga sem teto, que nos protege sem porta, que nos conforta sem chão.

"Amo como ama o amor. Não conheço nenhuma outra razão para amar senão amar. Que queres que te diga, além de que te amo, se o que quero dizer-te é que te amo?" (Fernando Pessoa)

**
(Referências: Dicionário Priberam da Língua Portuguesa: www.priberam.pt/A Casa, de Vinícios de Moraes.)

ÚLTIMA PALAVRA


Deixe-me ver seu sorriso,
Depois de anos separados.
Quero de volta aquela vida
E ter de novo seus cuidados.
Deixe-me ver seus olhos,
De cores verdes misturado com azul,
Que envolve meu coração
E traz de volta antiga emoção.

(...)
Agora lhe peço:
Deixe-me vê-la por inteiro;
Te ver caminhar,
Sorrir e cantar,
Sonhar e dormir.
Está chegando minha hora,
Pouco tempo me resta,
Fique ao meu lado,
Cante para mim,
Sorria para mim,
E nesse último suspiro te digo:
Adeus... Este é meu fim...

(Ensaio para a primeira tentativa de escrever um poema de Bella, amiga e colaboradora.)

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

"O CONTO DA ILHA DESCONHECIDA"

(...)
Não valia a pena ter-se preocupado tanto. O sol havia acabado de sumir-se no oceano quando o homem que tinha um barco surgiu no extremo do cais. Trazia um embrulho na mão, porém vinha sozinho e cabisbaixo. A mulher da limpeza foi esperá-lo à prancha, mas antes que ela abrisse a boca para se inteirar de como lhe tinha corrido o resto do dia, ele disse, Está descansada, trago aqui comida para os dois, E os marinheiros, perguntou ela, Não veio nenhum, como podes ver, Mas deixaste-os apalavrados, ao menos, tornou ela a perguntar, Disseram-me que já não há ilhas desconhecidas, e que, mesmo que as houvesse, não iriam eles tirar-se do sossego dos seus lares e da boa vida dos barcos de carreira para se meterem em aventuras oceânicas, à procura de um impossível, como se ainda estivéssemos no tempo do mar tenebroso, E tu, que lhes respondeste, Que o mar é sempre tenebroso, E não lhes falaste da ilha desconhecida, Como poderia falar-lhes eu duma ilha desconhecida, se não a conheço, Mas tens a certeza de que ela existe, Tanta como a de ser tenebroso o mar, Neste momento, visto daqui, com aquela água cor de jade e o céu como um incêndio, de tenebroso não lhe encontro nada, É uma ilusão tua, também as ilhas às vezes parece que flutuam sobre as águas, e não é verdade, Que pensas fazer, se te falta a tripulação, Ainda não sei, Podíamos ficar a viver aqui, eu oferecia-me para lavar os barcos que vêm à doca, e tu, E eu, Tens com certeza um mester, um ofício, uma profissão, como agora se diz, Tenho, tive, terei se for preciso, mas quero encontrar a ilha desconhecida, quero saber quem sou eu quando nela estiver, Não o sabes, Se não sais de ti, não chegas a saber quem és, O filósofo do rei, quando não tinha que fazer, ia sentar-se ao pé de mim, a ver-me passajar as peúgas dos pajens, e às vezes dava-lhe para filosofar, dizia que todo o homem é uma ilha, eu, como aquilo não era comigo, visto que sou mulher, não lhe dava importância, tu que achas, Que é necessário sair da ilha para ver a ilha, que não nos vemos se não nos saímos de nós, Se não saímos de nós próprios, queres tu dizer, Não é a mesma coisa. O incêndio do céu ia esmorecendo, a água arroxeou-se de repente, agora nem a mulher da limpeza duvidaria de que o mar é mesmo tenebroso, pelo menos a certas horas.
(...)

(Trecho de O Conto da Ilha Desconhecida, de José Saramago.)
Está completo no site: www.releituras.com/jsaramago_conto.asp
Não estranhem, o texto é assim mesmo, não segue Norma Culta, quanto à pontuação.