terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

ENTREVISTA

A fila se forma de maneira rápida e se dissipa com a mesma velocidade do lado de fora. Os agentes, altamente treinados, organizam com vontade toda aquela multidão e a empurra para dentro do edifício. Celulares, aparelhos eletrônicos de qualquer tipo, objetos cortantes, pontiagudos, armas de fogo, terroristas portáteis, tudo fica do lado de fora. Lá dentro, muita gente para organizar e mais ainda para ser organizada. Fila, muita fila: para passar no detector de metais, para chegar ao primeiro balcão, deixar o passaporte, depois pegar a senha, depois para esperar. Um amontoado de gente que teve de agendar o atendimento exatamente no mesmo horário (isso ainda não entrou numa era moderna mais inteligente, paciência!); um atrás do outro ainda para marcar as digitais e, enfim, a fila de espera para a entrevista.

Os momentos em formação militar são os mais lembrados. Observa-se tudo: o comportamento dos funcionários de crachá e rádio na mão; os cinturões que marcam as curvas e organizam o povo cada um no seu quadrado; as expressões das pessoas, que descrevem tédio, ansiedade, cansaço... Quase que se ouve de alguns os pensamentos (muitos inapropriados para se dizer aqui), mas que, certamente, são capitados por todos os presentes na sala, inclusive os entrevistadores.

Particularmente o meu pensamento foi: não seja aquele ali, com cara de caixinha de areia usada, que vai me entrevistar, não seja aquele ali, não seja... “Senhora, cabine três, por favor.”

...

(Este trecho da narrativa foi cortado por requisição da censura pessoal e profissional do autor. Para reproduzir o conteúdo não divulgado, basta arremessar a substância da tal caixinha em alguém e aguardar.)

Que fazer? Posso fingir que não pensei nada a respeito, mas ele intuitivamente já tinha assimilado tudo e não estava escondendo o descontentamento.

― Bõm djia. Passaporrtchi porr favorr. – disse sem tirar os olhos da tela do computador.

Que dificuldade! Serei entrevistada de pé, por uma pessoa sentada a minha frente, usando um aparelho reprodutor de voz robótica, com sotaque de norte-americano falando espanhol do interior de São Paulo, através de um vidro furado na altura do meu umbigo. Tudo o que eu precisava para me sentir confortável, em pleno estado de tranquilidade.

― Quãntos djiasvai ficarrem Estados Unidos?

― Não entendi. Pode repetir?

Veio aquela cara de caixinha de novo, só que dessa vez os olhos foram para o teto, numa expressão mais acentuada de que eu, definitivamente, estava aborrecendo o seu cérebro.

― Tênm fillhos?

― Não.

― É cassada?

― Não.

― Quêm vai pagarr suas despessas?

Entrego-lhe uma carta que explica quem pagará minhas despesas. A carta está em inglês. Foi o suficiente para o homem se descontrolar. Não entende porque eu não estou na fila para os falantes da língua inglesa, e fica mais furioso quando explico que eu não falo inglês. Muito difícil de perceber que outra pessoa redigiu a carta, e a pessoa é norte-americana.

Agora, nós dois com cara de caixinha. Ele conseguiu me irritar. Mandei tudo para os quintos e comecei a corresponder no mesmo tom de desprezo:

― Falla Engllês?

― Deveria?

― Do you speech English? What are you thinking? (E mais um monte de frases desse tipo, que, pelo o que pude entender, estava me recriminando seriamente por não responder suas perguntas diretamente).

― Again: vôcê falla Engllês?

― Já disse que não!

Observa-me por uns instantes, sem erguer a cabeça, numa expressão de poucos amigos.

― Bôa viagenn. Nassaída pagarr ennvio do correiyo.

― Passar bem.

E fui embora sem olhar para trás. Não tive notícias de uma entrevista para conseguir o visto americano mais estranha. E achei sinceramente que me recusariam. Mas agora estou aqui, em New Jersey, contando toda essa história, bebendo chocolate quente e vendo neve pela janela.

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quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

MEU IDEAL É ESCREVER...

Meu ideal seria escrever uma história tão engraçada que aquela moça que está doente naquela casa cinzenta quando lesse minha história no jornal risse, risse tanto que chegasse a chorar e dissesse – “ai meu Deus, que história mais engraçada!”. E então a contasse para a cozinheira e telefonasse para duas ou três amigas para contar a história; e todos a quem ela contasse rissem muito e ficassem alegremente espantados de vê-la tão alegre. Ah, que minha história fosse como um raio de sol, irresistivelmente louro, quente, vivo, em sua vida de moça reclusa, enlutada, doente. Que ela mesma ficasse admirada ouvindo o próprio riso, e depois repetisse para si – “mas essa história é mesmo muito engraçada!”.

Que um casal que estivesse em casa mal-humorado, o marido bastante aborrecido com a mulher, a mulher bastante irritada com o marido, que esse casal também fosse atingido pela minha história. O marido a leria e começaria a rir, o que aumentaria a irritação da mulher. Mas depois que esta, apesar de sua má vontade, tomasse conhecimento da história, ela também risse muito, e ficassem os dois rindo sem poder olhar um para o outro sem rir mais; e que um, ouvindo aquele riso do outro, se lembrasse do alegre tempo de namoro, e reencontrassem os dois a alegria perdida de estarem juntos.

Que nas cadeias, nos hospitais, em todas as salas de espera a minha história chegasse – e tão fascinante de graça, tão irresistível, tão colorida e tão pura que todos limpassem seu coração com lágrimas de alegria; que o comissário do distrito, depois de ler minha história, mandasse soltar aqueles bêbados e também aquelas pobres mulheres colhidas na calçada e lhes dissesse – “por favor, se comportem, que diabo! Eu não gosto de prender ninguém!”. E que assim todos tratassem melhor seus empregados, seus dependentes e seus semelhantes em alegre e espontânea homenagem à minha história.

E que ela aos poucos se espalhasse pelo mundo e fosse contada de mil maneiras, e fosse atribuída a um persa, na Nigéria, a um australiano, em Dublin, a um japonês em Chicago – mas que em todas as línguas ela guardasse a sua frescura, a sua pureza, o seu encanto surpreendente; e que no fundo de uma aldeia da China, um chinês muito pobre, muito sábio e muito velho dissesse: “Nunca ouvi uma história assim tão engraçada e tão boa em toda a minha vida; valeu a pena ter vivido até hoje para ouvi-la; essa história não pode ter sido inventada por nenhum homem, foi com certeza algum anjo tagarela que a contou aos ouvidos de um santo que dormia, e que ele pensou que já estivesse morto; sim, deve ser uma história do céu que se filtrou por acaso até nosso conhecimento; é divina.”

E quando todos me perguntassem – “mas de onde é que você tirou essa história?” – eu responderia que ela não é minha, que eu a ouvi por acaso na rua, de um desconhecido que a contava a outro desconhecido, e que por sinal começara a contar assim: “Ontem ouvi um sujeito contar uma história...”

E eu esconderia completamente a humilde verdade: que eu inventei toda a minha história em um só segundo, quando pensei na tristeza daquela moça que está doente, que sempre está doente e sempre está de luto e sozinha naquela pequena casa cinzenta de meu bairro.

(Rubem Braga, As Cem Melhores Crônicas Brasileiras)

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

ÚLTIMA CHAMADA

Acho que todo mundo já passou por uma situação desse tipo, pelo menos uma vez na vida. Se não passou, vai passar.

Estou falando daquela impressão que nos assalta o mundo perfeito diante do nosso nariz, quando, de repente, nos damos conta de que o que estamos ouvindo não é o que estamos ouvindo. Exatamente isso. Estão falando com a gente, chega um som aos nossos ouvidos, partindo de algum ponto a nossa volta, mas o que está sendo dito não é o que está sendo informado. Ah, os campos ocultos da nossa mente!

No meu caso, demorou um tempo para perceber. Precisei me dominar primeiro, conformar-me com pelo menos mais uma viagem de avião, inevitável, para, então, alcançar a mensagem obscuramente oculta por trás de todos aqueles informativos, que fatidicamente devem ocorrer em todos os voos, sejam para perto ou para longe.

E, se você ainda não se apercebeu da questão, o que é normal, já que estou contando isso com a linearidade de um bêbado em areia movediça, vou levá-lo ao ponto da conversa em que meu cérebro, já esperto, enfim compreendeu os tais comunicados:

― “Senhores passageiros, bem-vindos ao voo 456, com destino a Brasília.” É o que eu ouvi, mas não é o que estão dizendo. Certeza. O que querem mesmo que a gente entenda é o seguinte: Se você não é desse voo e não está indo para esse lugar, caia fora agora mesmo. É sua última chance, não vamos avisar de novo.

Duvida?

― “Eu sou o capitão Fulano, estou no comando dessa aeronave, juntamente com o primeiro oficial Sicrano.” Ah, mas a intenção mesmo é: Sacou quem manda no pedaço?

― “Você já sabe, mas não custa lembrar: é proibido fumar dentro da aeronave. Pedimos que, por favor, desliguem todos os aparelhos eletrônicos. Em instantes demonstraremos os procedimentos de emergência.” Então está dito: É, você sabe, mas é brasileiro, então a gente reforça: não é pra fumar, nem tenta falar ao telefone. Lembra quem está no comando aqui?

Depois dessa revelação súbita, fiquei na dúvida do que pensar a respeito disso aí que estão fazendo na minha frente agora... Esse povo todo, que voa para um lado e para outro e não chega a lugar nenhum, alegando que é profissão, passou a ser alvo de minha mais sincera desconfiança. Mais um bom motivo para não andar, nunca mais na vida, de avião, não acham? Quê? Pretexto? Medo de voar? É nada! Eu disse isso?
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