quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

CARDÁPIO SINESTÉSICO

Depois da euforia inicial com as novas sensações gastronômicas das nossas férias no Chile, fomos tentar novas sensações, com outros sentidos, subindo o Villarrica.

Esse pedacinho do Chile esteve em pânico a última vez em 2010 (um ano antes de nossas férias), por causa do aumento de sua atividade. O vulcão nunca desfez a cara de mau e vive com seu chapéu de fumaça no topo. O povo da região teve sua última grande perda em 1971, com uma grande erupção, e em 84 sofreram outra ameaça grave, mas já estavam preparados para não terem de enterrar as consequências.

Agora, estávamos lá, no pé da grande montanha, no meio de um dos rios de lava seca, com formatos assustadores de uma grande catástrofe. Estávamos decididos a chegar até La Casa del Diablo, uma de suas crateras extintas mais visitadas. Olhamos em volta. Tudo o que precisávamos fazer era seguir a trilha que apontava para o trecho da mata não afetada pelos filamentos de fogo de 71.

A caminhada tinha o começo agradável, muitas árvores, flores, plantas coloridas e muitas placas indicavam que um dia, naquele lugar, houve animais de pequeno, médio e até grande porte, mas o que se conseguia ver mesmo eram muitos, muitos lagartinhos, besouros e mosquitos. Nem pássaros eram tão presentes. Talvez por isso, essas coisinhas menores não tivessem que lutar pela sobrevivência, e se espalhassem por todo o lado, com espaço de sobra para se multiplicarem.

Depois de uma hora e meia andando em ziguezague, subindo lentamente em círculos, a sede, o cansaço e o calor começaram a pesar. Continuamos até que, em um determinado ponto, a floresta cai numa extensa vala, como se tivesse passado por baixo da terra um dos braços do rio destruidor de lava, fazendo com que o chão e as árvores se jogassem no vazio. No meio desse fenda, um riacho magro, de água gelada, vinda do vagaroso derretimento da neve que nunca morre. Fomos até o fio dessa água, lavamos o rosto, os cabelos, esfriamos nosso consaço.

Desse ponto em diante, um companheiro a mais na viagem, um grande besouro barulhento e brilhante descobriu-nos. Seguiu-nos não disposto a amizades. O ritual era de agouro, voando em torno de nossas cabeças como se fôssemos animais agonizantes, fazendo-nos bater os braços enquanto as pernas trabalhavam. Curiosamente aquele bicho tinha uma gangue, e todos, em solidariedade, vinham ao seu encontro, assim que este era atingido. Os amigos também entravam em órbita em volta de nós, zumbindo e dificultando nossa nada fácil tarefa.

Uma curva, sol, sombra, uma palmada no besouro, outra curva, subindo, subindo, a indicação da trilha, mais curva, mais subida, mais besouros, e, de repente, depois de uma curta virada, lá estava ela, branca e brilhante, em um pequeno círculo no solo. Vi essa imagem por alguns minutos, inquieta, movendo-me para todos os lados, contente de estar vendo neve pela primeira vez. Chegamos perto, um pé por cima dos cristais, com cuidado para não sermos engolidos por alguma surpresa líquida. O outro pé, fomos andando devagar até ficarmos bem no centro do círculo, sentindo o vapor frio se misturar com a ardência dos raios solares queimando a pele.

Paramos por uns minutos ali, fotografando e observando tudo. Foi quando veio a brilhante ideia: neve de água da chuva, em uma região não habitada... Água limpa! Cavamos o mais fundo que conseguimos, retiramos um punhado daqueles flocos de gelo e comemos, uma, duas, três vezes, para matar toda a nossa sede. Bebemos neve eterna do vulcão Villarica para poder continuar nossa aventura.

Logo em seguida, chegamos à cratera. A imagem daquilo nem sei se posso descrever. Mas a sensação era de que realmente ali morava El Diablo, Dante não teria desenhado cenário melhor para isso. Sentamos no alto de uma grande pedra de lava seca, olhando a paisagem lá embaixo, o caminho por onde subimos, as montanhas mais ao longe, o céu, o cume branco da montanha, o verde resistente da floresta de insetos. Descansamos com os olhos cheios daquela paisagem misturada, ambígua e confusa de beleza e destruição. Todo o sacrifício valeu aquele momento.

Já o fato de comer neve eterna... bem, não aconselhamos que façam isso em casa. Se estiverem diante de um bom punhado de gelo, retirado da base de um vulcão em atividade, pensem: isso está contaminado com enxofre e vai lhe causar febre alta, mal estar e sérias dores abdominais por três dias. Experiência própria.
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