sábado, 13 de agosto de 2011

A BATALHA

Na primeira vez, houve muitos estampidos. Consegui me abaixar, porém fui atingido. Pensei estar no Maracanã e gritei todos os palavrões que vieram a minha cabeça. Alguns instantes se passaram e vi que o melhor era esperar a situação se acalmar, para que eu pudesse enfim me aproximar. Nessa hora, quase desisti de enfrentar o inimigo ali esparramado na frigideira, imóvel, aparentemente domado, mas não me dei por vencido. E concluí que enquanto está cru, envolvido em sua casa frágil, ele é considerado um fresco ou inofensivo, porém, para torná-lo frito a chapa literalmente esquenta.

No livro A Arte da Guerra, há passagens dizendo que você precisa conhecer bem o seu inimigo para poder enfrentá-lo. Digamos que pulei essa parte, fui diretamente ao confronto face a face. Animado, coloquei um pano de prato sobre o braço esquerdo (esse seguraria o cabo da frigideira) e a mão direita, munida de "espumadeira", eu usaria como um esgrimista para atingi-lo ― claro que tendo o cuidado de não feri-lo. Estava tudo se encaminhando conforme o meu estabelecido: ovo quebrado, óleo no fogo, braço protegido e arma na mão. Coloquei o ovo na frigideira e habilmente agarrei o seu cabo, como se fosse a manga do quimono de um judoca, tentando a melhor maneira de domínio. Lentamente, com a mão direita, atingi em cheio a parte inferior do inimigo. Respirei fundo. Acredito ter envelhecido 100 anos, pois sentia meu rosto todo em forma de sanfona, mais enrugado impossível.

Na modalidade saltos ornamentais, quanto menos água espalhar, mais perfeito é o salto. Coloquei isso em prática! Com um ipon (golpe perfeito no Judô), consegui vira-lo sem destroçar o seu coração, o que é mais importante. Lembrando que houve estampidos, chiadeira e movimentos bruscos, entretanto, a batalha estava vencida. Digo batalha mesmo, com direito à destruição e muita desordem. A cozinha era uma verdadeira praça de guerra, sujeira para todos os lados e tudo espalhado.

Reconheço que enfrentei um grande oponente, venci a briga quase sem nenhum arranhão. Porém, se tiver quem brigue no seu lugar, fique no comando e mande-os para a linha de frente, pois o inimigo é poderoso e pode causar algumas baixas. Como estrategista, sou solicitado para outras batalhas.

(Autoria de CBS, amigo e colaborador)

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

O QUE SE LEVA

É difícil compreender como algumas pessoas sentem tanta necessidade de homenagear, de forma desesperadamente escandalosa, alguém que não está mais aqui para saber. Pior ainda: às vezes, o tributo vai para uma personalidade que não conheceram de fato, com a qual nunca trocaram palavra, sequer compartilharam qualquer tipo de afeição. Se há algum sentido nisso, deve estar ligado à vaidade, porque, em “intenção de”, pode-se fazer um esforço no próprio pensamento para reconhecer talento, caráter ou bons sentimentos alheios. Mas essa coisa toda de mostrar ao mundo, a todo custo, o quanto me importo, ainda não cabe no meu conceito.

Admito que cada um tenha seu jeito - é uma condição irrevogável, que facilita muito se entendermos e aceitarmos logo. A minha opinião pode alcançar quem concorde, discorde, ou quem simplesmente ache tudo insignificante, numa total indiferença. Particularmente, gosto mais deste último, para casos assim. Duvido muito ser importante o modo pelo qual expresso meus sentimentos em relação à morte de um grande artista, se sinto a ponto de me vestir como, de me expor imitando, de me entupir de palavras para um discurso público armado.

Mais produtivo e prático seriam uns momentos de reflexão. Mortes semelhantes a da Amy Winehouse poderiam nos fazer pensar em como alguns lidam com a vida, enfrentam as dificuldades, cuidam de sua própria existência, e como se vão de um jeito tão estúpido, levadas pela própria ação, à revelia de sua vontade.

A gente não tem dom nem ciência necessários para afirmar se há alguém querendo vir para esse mundo, ou voltar para ele, que seja. Não dá para saber, mas alguns imaginam que sim. Por isso, muitos idealizam a vida conforme uma dádiva a ser valorizada e nunca perdida levianamente. Costumam acreditar que tantos gostariam de outra oportunidade, e parte daqueles que a tem joga fora com prazeres frívolos, atitudes irresponsáveis.

Convenhamos, a luta pela sobrevivência nesse nosso planeta, do jeito que está, é digna de um longa. Em cada esquina, há uma chance em potencial de perdemos a vida, ou boa parte dela. Aí, surgem pessoas que não ligam a mínima, expondo-se com tudo ao que podem e não podem, sem limite. Quando o óbvio acontece, é quase irônico ouvirmos: “Morreu tão cedo. Tinha tanto para oferecer ainda.” Além de ser um pensamento muito egoísta, é também uma irracionalidade.

Não digo que Winehouse, ou outro alguém com a mesma sorte, merecesse. Nenhum de nós deveria se imaginar capaz de fazer julgamentos a respeito de quem merece ou não qualquer coisa. Mas digo que, se essas pessoas não se muniram dos cuidados básicos que eu e você tivemos para ainda estarmos por aqui, essas pessoas só podem estar onde precisam estar. Nada mais.

Pode parecer insensível olhar dessa maneira. Talvez seja. Mas o que está feito, está feito. E não há nada que possamos inventar para desfazer a morte. À parte do que realmente somos, das nossas crenças e convicções, que cada um absorva, a seu modo, em homenagem sincera aos famosos e aos anônimos, a lição considerada mais valiosa. É o que se pode levar: uma lição para nos fazer melhores, em tributo silencioso e único, para quem ainda está aqui e nos é importante.

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