domingo, 19 de junho de 2011

DISCURSO EM HOMENAGEM

Era o ano de 1996. Bill Clinton se reelegeu presidente. O Brasil trouxe dos Jogos Olímpicos em Atlanta quinze medalhas. Fernando Henrique aprovou leis contra o fumo em ambientes fechados. E foi também o ano de minha formatura. Todas as outras coisas que aconteceram ficaram em algum lugar, mas isso veio comigo e é assim que me lembro desse ano.

Foi um dia irreal, como um daqueles que parecem passar em câmera lenta. Os preparativos, a agitação das pessoas, os detalhes... Tudo girando numa lâmpada incandescente gigante cheia de óleo aromático. Eu e minha família nos arrumando ao cair da tarde e nos dirigindo para o local onde seria realizada a cerimônia de formatura.

Olhava para os meus filhos e meu marido sentados a minha frente, nas cadeiras reservadas. E nós, a turma de formandos, juntos, sentados do outro lado. Era um orgulho imenso ver que minha família estava lá para me ver, testemunhava o que por vezes nem eu acreditava: eu havia conseguido.

Senti como se toda a minha vida tivesse valido a pena. Tudo o que passei desde a primeira lembrança de minha infância até aquele momento. Não sabia separar em meu coração a felicidade por ter realizado dois sonhos distintos que alimentei desde sempre, ter uma família e ter um grau de conhecimento que me permitisse entender melhor o meu pequeno mundo. Talvez porque os dois desejos estavam ali na minha frente, vivos, como um casamento perfeito entre azedo e doce.

Foi uma comemoração muito simples, assim como eram simples minhas ilusões, meus ideais, meus pensamentos.

Minha vida.

Venho de família humilde, numerosa e enraizada no nordeste brasileiro. Eu, a sexta filha de um total de onze gestações bem sucedidas, fui, durante todo o tempo, a criança mais magra e menos desenvolvida fisicamente de nossa casa. Com os ossos salientes e cabelos muito compridos, só tinha em mim curiosidade, sonho e um mundo de imaginação.

Meus pais eram pessoas rigidamente tradicionais, para não dizer, antiquados. Acreditavam nos antigos valores morais, na obediência inquestionável, na religião e na concepção de que mulher nasceu para servir ao lar. Por isso, mesmo meu pai sendo um homem instruído, para os padrões locais, não me permitia frequentar a escola, nem ao menos permitia a alfabetização, para que eu não escrevesse aos namorados ou perdesse tempo com futilidades sociáveis. Isso tudo era uma inutilidade, “uma perda de tempo aprender algo que você não vai usar. Uma mulher não precisa disso”. Eu, como mulher, como um ser inferior, só igualada às fêmeas parideiras que tínhamos no curral, com a serventia exultante da procriação e da espera pela morte, não escapava à lógica de seu raciocínio. Para ele, as prendas domésticas é que equipavam uma mulher com o que havia de melhor em relação à satisfação de viver. Era assim que eu tinha de ser feliz, com as delimitações de uma dona de casa analfabeta, alienada e cheia de filhos.

Mas, como eu ainda não percebia esse pensamento tão maciçamente solidificado na cabeça de meu pai, quando fiz dez anos, pedi para que ele me deixasse estudar. Nem cheguei a entender o porquê dele ter me negado. Mal conseguia acompanhar o que ele queria dizer com “filha minha não vai ficar mal falada” – mal falada porque vai aprender, vai ter instrução? Na minha ingenuidade, isso não fazia o menor sentido. Mas eu já sabia, já compreendia que não estar na escola iria me deixar inferior, iria me fazer menos quanto mais eu crescesse. Já sentia que isso me faria uma pessoa solitária, cada vez mais presa na minha ignorância.

Percebendo meu desejo de aprender e minha frustração diante de um “não”, um tio de minha mãe, que se chamava Ageu, aproveitando as poucas ausências de meu pai, ensinou-me o nome das letras. De um jeito todo particular, começou a explicar como formar sílabas e, consequentemente, a formar as palavras. Usava, como material didático, jornais velhos que serviam de embrulho das compras.

O tio Ageu já era um senhor de cabeça branca quando começou a vogar a meu favor, insistindo com meus pais que me liberassem para frequentar a escolinha. Não teve sucesso. Assim, seguiu minha alfabetização clandestina até o dia em que minha mãe descobriu. Nesse dia, meu tio e eu fomos castigados. Ele foi enxotado de casa como um cachorro vadio e eu apanhei que nem gente grande.

Eu costumava apanhar por muitos motivos, apanhava mais ainda quando não tinha um. Minha mãe instigava meu pai a me bater por qualquer coisa que ela achasse que eu tinha feito; por qualquer intenção maligna que ela achasse que eu escondia. Mas tive um apoio. Minha madrinha conversava muito comigo a respeito desse tratamento que eu recebia. O que poderia ter se transformado em ódio e revolta, transformei em mágoa profunda. Era uma mágoa amordaçada e dolorida, que me maltratava também, mas hoje sei que foi o melhor que pude fazer por mim. Eu não tinha outra boa chance de crescer como uma pessoa aceitável no meio social.

Agora estou aqui, relembrando o dia em que finalmente consegui. Nem posso desejar que meus pais estivessem presentes para dividir o orgulho. Capaz de estarem me maldizendo por ter insistido na desobediência. Precisei passar dos 40 para ser uma filha completa em má conduta. Precisei passar dos 50 para entender como minha vida andou por aí comigo atrás insistindo, apanhando, mas nunca ficando no meio do caminho aos prantos. Continuava, dava um jeito de chegar. E acho que ainda será assim por mais um tempo. Nenhuma idade escapa do anseio de se continuar a caminhada. Aprendendo e evoluindo.

(Conto da mãe da Nina, especialmente confeccionado para este blog)

sexta-feira, 10 de junho de 2011

LIÇÃO DE CASA

As crianças refaziam, a perder as contas, o tal círculo que serviria de base para a figura final. Muitos traços tortuosos, por causa da pouca prática nesse tipo de aventura, deixavam dúvidas sobre o que intencionavam desenhar.

A professora orientava que, depois de unir as duas pontas da linha, uma “perninha” começaria a nascer pelo lado indicado na lousa e, assim, teríamos a primeira letra do nosso alfabeto, o que me desanimava bastante, já que teria de presenciar o nascimento de cada uma das partes de cada uma das vinte e seis letrinhas. Sentia-me como um obstetra alterado.

Ao fim do exaustivo exercício, precisava conferir e elogiar o trabalhinho de meus assistidos, Janice e Léo. Um casalzinho simpático que não se suportavam (e quem suportaria?) e que se tornaram minha mais doce pena, por ter invadido a sala dos professores para descobrir quem era o namorado da professora de francês. É que ela é a única da escola que merecia minha pirraça adolescente. Hormônios descontrolados e imaturidade no mesmo recipiente não combinam, vamos ser sinceros.

Janice desenhou uma coisa parecida com um biscoito velho, de aspecto estragado; pois, o que deveria ser a “perninha” da letra, mais denunciava a impressão do mau cheiro oscilante que provinha da lateral e se dirigia para cima, como que para alcançar o seu próprio narizinho, tão pertinho da mesa.

Léo, que na verdade se chama Levir, mas herdou o apelido de uma tia que é doida pelo cantor sertanejo, que não é sertanejo, Leonardo, desenhou uma argola meio gelatinosa. Uma obra surreal, certamente. O traço me fez lembrar o de um grande arquiteto famoso que não me lembro o nome agora. Espero que o menino não tenha melhorado nesse ponto.

Todos os dias, depois da minha aula, durante seis meses, eu precisaria estar na cola dessas duas criaturinhas adoráveis, de comportamento mais do que ativo. A intenção era me fazer perceber o quanto se pode aproveitar a criatividade em desenvolvimento próprio e de outras pessoas. Isso foi o que me disseram. Mas o que percebi na época foi o quanto pode ser chato e cansativo um comportamento inconveniente, quando dirigido a mim; e o quanto eu era parecido com esses dois, apesar da distância de idade.

Certo dia, ajudei-os a pintar um cartaz fixado no corredor que transmitia uma mensagem sobre o aniversário da escola. Só não chegou a ser ato de vandalismo porque a mensagem comoveu os funcionários. As crianças desenharam corações e sóis. Eu tentei desenhar o rosto deles.

Passamos a ser três cúmplices de traquinagens durante dois meses, pois o tempo de monitoração não durou o que foi previsto. Acho que repensaram essa coisa de quem aprende o quê e viram que, enquanto eu me “endireitava”, as crianças se corrompiam com minhas ideias descabidas.

Não cheguei a ver o nascimento das outras letrinhas e, ao final daquele ano, não vi mais aqueles pestinhas. Voltei a andar com minha turma de despreocupados, a falar como um rinoceronte gago e a compartilhar os interesses típicos de minha idade. Também comecei a investir num novo plano para chamar a atenção da professora de francês.

Mas nem tudo foi perdido. Naquele período foi plantada uma sementinha que me levaria a um futuro diferente do que eu pensei quando criança – eu queria ser delegado. Acabei percebendo, bem mais tarde, o quanto eu era bom em continuar a ser criança e o quanto elas, as crianças, me entendiam. E usei isso para me tornar o que sou hoje: um multiplicador de histórias.

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