sexta-feira, 22 de junho de 2012

CAVALO DE TRÓIA

Consumimos tecnologia ou ela nos consome?

A compra de qualquer produto dentro de uma casa, onde o que impera é a comunicação, importante é o poder do convencimento, mesmo sabendo que tal produto pode agradar mais a um do que o outro...

― Mô, comprei umas panelas que são a nossa cara, modernas, práticas, esmaltadas e muito bonitas; cozinham nossas refeições em instantes, sem deixar queimar, enquanto fazemos outras coisas! Depois é só colocar o bife no grill e tá tudo pronto. Assim, teremos muito mais tempo um para o outro!

Temos aqui, uma “culinária de tomada”, é só plugar! Ela convenientemente convence o marido a adquirir um par dessas praticidades, claro que com a preocupação de não ser taxada de preguiçosa, pois, tratando-se de forno e fogão, a sogra é uma excelente cozinheira, e totalmente avessa a tecnologias – com muita dificultade ainda aceita microondas para fazer pipoca de saquinho.

― Claro, Vida! Quero você o mais longe possível da cozinha!

Ponto para ela. Quanto mais longe da cozinha, mais tempo no facebook. Se pudesse entraria lá só para ligar e desligar o microondas, já que tudo fica uma delícia feito nele, principalmente em se tratando de lasanha semi-pronta.

E voltando ao poder de convencimento...

― Vida! Comprei um presente para nós... Última geração, som e imagens de alta definição, tem acesso a Internet, grava e reproduz blu-ray, disco ótico e pode armazenar até 160 GB!

“O que será? Temos em nossa casa tudo de mais moderno, TV, computador, som, home theater...” Ela pensa. Ele continha:

― Lembre-se que nosso casamento foi gravado em DVD comum e em blu-ray e ainda não o vimos em blu-ray! Estou curioso para ver como que é. Não poderia perder essa oportunidade!

― Mô, estou confusa. O álbum de fotos do nosso casamento, a cada passada de dedo, você virava duas ou três fotos ao mesmo tempo, numa tentativa de encurtar sua impaciência. Acho que quando fizermos dez anos de casados, e você por um breve momento olhar nosso álbum, é bem capaz de pensar que está sem memória, pois haverá fotos inéditas para você. Quando coloquei o nosso DVD e comecei a falar dos detalhes das roupas dos convidados e fofocar sobre outras coisas, você já estava babando verde. Agora vem me falar que quer ver tudo de novo? E em blue-ray?!

― E tem dois joystics... continuou ele.

― Ah, não! Não acredito que você comprou isso! Se era para ver nosso blu-ray, que comprasse um aparelho para tal. Agora, um... um vídeo game? E ainda tem a cara-de-pau de falar que é um presente para “nós”? Para nós!? Um vídeo game? Onde é que eu entro nisso?

― Vida, não é vídeo game! É blu-ray que armazena dados, dá para ver DVD e até serve para jogar!!! Além disso, um joystick é seu e o outro é meu!

Algum tempo depois, com a chegada do “presente”, ele fez questão de assistir, ao lado da amada, por duas horas, o blu-ray do casamento. Fez comentários pertinentes e prometeu comprar alguns filmes românticos para passarem bons momentos juntos, assistindo a tudo com todos os detalhes que a nova tecnologia proporcionava. Isso a deixou muito feliz, ele parecia outro!

Realmente mais filmes foram comprados, e ele sempre pedia para ela esperar só um pouquinho, pois estava testando novos jogos. Os dois joystics? Foram usados sim, porém não por ela. Um deles apresentou defeito logo, devido ao afundamento dos botões por uso em excesso. Quanto aos filmes...

(Autoria de CBS, amigo e colaborador)

segunda-feira, 18 de junho de 2012

NA VEIA

― Foi lá que eu conheci. No Brasil. Uns amigos da faculdade me ofereceram uma pequena quantidade. Depois disso, nunca mais pude me esquecer. Fiquei viciado. Ah, o Brasil, e suas belezas inigualáveis! As praias que não conheci, as mulheres... sim, mulheres muito bonitas, se me permite dizer. É com todo o respeito! Mas aquela sensação, aquela sensação ao provar o pó dissolvido e praticamente injetado, de tão ansioso que eu ficava, em lugar nenhum do Chile eu teria isso...

Depois de uma tentativa frustrada de almoçar em nosso primeiro dia em Santiago, em um local de indicação nativa, deparamo-nos com um outro chamado Mercado Central. O prédio por fora tinha bom aspecto e o movimento intenso indicava que lá acontecia algo que muita gente compartilhava. Entramos.

Estávamos certos. Muita gente passando o domingo comendo e bebendo por ali. Era um salão enorme, de teto alto e antigo, um tanto danificado e empoeirado, cercado de restaurantes de todos os modelos, cores e tamanhos, com muita sujeira, luzes, adereços e agitação.



Percorremos a extensão do mercado pela parte interna, observando cada canto, comentando os tipos, as imagens, quando de repente alguém nos aponta gritando: “Brasileiros!”. Era mais um vendedor de maravilhas (Que ótimo!) e, exatamente como num déjà vu, ofereceu-nos a sua especialidade, mas antes, desfiou um rosário de histórias sobre suas visitas ao Brasil, de como aprecia o povo simpático e as mulheres bonitas, “Com todo respeito!”.

A conversa andou. O rapaz era verdadeiramente um conhecedor de muitas coisas. E dessas coisas, confessou-nos, uma em particular o levou a um vício desenfreado, e a uma crise de abstinência sem precedentes, quando voltou para o Chile. Sim, no Chile não tem paçoca, nem fazem ideia do que seja, talvez imaginem algo como um bastão de trigo e sal, com dendê, banana, café, cachaça e purpurina.

― Foi lá que eu conheci. Ah... mas ainda lembro. Lembro perfeitamente...

E lá se foi a descrição de como o vício o consumiu. E depois de todo o blá, blá, blá, mais uma vez, não sem medo de nos arrepender, resolvemos aceitar a sugestão do almoço e nos sentamos no pedacinho do salão que correspondia ao restaurante Jóia do Pacífico.

Não demorou muito e o prato chegou, apenas um, por recomendação, pois os pratos chilenos eram fartos, uma informação que nos foi muito útil durante toda a nossa estadia por lá. Primeiro a imagem: reineta era um peixe de carne levemente rosada, estava coberto com um molho branco e, à parte, uma salada e arroz. Não sabemos se a salada e o arroz eram tão bons quanto o chefe nos afirmou, mas o peixe... Era realmente fantástico, uma combinação perfeita de temperos, preparado com um minucioso cuidado, muita precisão no tempo de cozimento, como num restaurante daqueles em que cada item do cardápio vale um salário mínimo brasileiro, mas sem a frescura da apresentação, sem racionamento na quantidade e muito, muito barato.

Então, restaurados na fé em indicações de desconhecidos e alimentados, seguimos com nossas andanças. Mochila nas costas, várias camadas de protetor solar, mapa na mão e muita disposição para conhecermos tudo o que pudesse caber em três dias. Demora bem mais para contar, mas em algum momento, eu chego no ano novo. Esse foi o nosso Natal de 2011.
**