domingo, 2 de setembro de 2012

LIÇÃO DA VIDA

— O senhor está despedido! O pobre homem não acreditava no que ouvia. Tremeu da cabeça aos pés e o nervosismo apoderou-se dele. Quis falar, mas os lábios trêmulos se fecharam, sentindo a língua presa.

— Mas, “seu doutor”...

— Não me interrompa. Eu sei o que é melhor para a empresa. O senhor é um funcionário antigo, seu salário é alto, mas a sua produção é a mesma, se não, menor.

— Mas, ...

— Nem mas, nem meio mas. Cale-se! – e o diretor continuou a dissertação. – Com o seu salário posso contratar dois universitários, e os inscrevo como estagiários, e fico bem na fita com o presidente. A fila anda! A vida é assim!

O diretor, homem enérgico e prepotente, não parava de gesticular. Sua voz fluía rápida e sequer respeitava o drama vivido pelo pai honrado e trabalhador, e prosseguia:

— O mundo, graças à tecnologia moderna, não tem lugar para pessoas que não produzem acima da sua própria potencialidade...

O funcionário já não mais o escutava. Seus pensamentos retrocederam no tempo. As antigas lembranças se fundiam às mais recentes. Nesse estado emocional, via um pequeno prédio, paredes mal pintadas, mesas rústicas que contrastavam com outras mais novas de tampos de vidro e de aço.

Mecanicamente limpa os óculos e a testa, onde corria o suor e, neste exato momento, verificou que a antiga iluminação lhe roubara a visão. Mas, só lhe roubara a visão? Não! A sua empresa – ele vivia para ela – roubara-lhe muito mais. Rouba-lhe a viço da juventude, a rigidez dos músculos, a flexibilidade dos nervos e articulações, o tempo aos filhos e o próprio diálogo com a esposa.

Sua lembrança não faz esquecer que esse mesmo diretor que o despedia, pasta moderna de couro, gravata italiana, notebook e telefone celular, não o cumprimentava. Ele se perguntava: “Será que a humildade é uma moléstia? Será que a prepotência une os seres em prol de um objetivo coletivo e mútuo?” As perguntas ficaram no ar. O fato é que a prepotência vencera a humildade. A demissão fora consumada.

Semana seguinte, o diretor, no papel de galo pimpão, recebia alternadamente duas novas estagiárias.

— Bom dia, linda! Que bom que você veio. Almoçamos hoje, gatinha?

À tarde, com a outra nova contratada.

— Nossa! Que colírio para os meus olhos!

Porém, a morte que a tudo assistia, colocou o diretor e o despedido em covas bem próximas. E DEUS aplaudiu o último ato.

(Sidney Tito - sidneytito.blogspot.com)