quinta-feira, 2 de agosto de 2012

O TÍPICO DA DIFERENÇA

Há coisas na vida que você precisa aprender antes de conhecer outras terras, outras pessoas, outros sabores, outras coisas... Eu , por exemplo, tive que aprender o que é de verdade água com sal e açúcar no jantar, que duendes só existem na casa da Xuxa, que CD só toca de um lado, que Paulo Coelho e Hebe Camargo são mais apreciados em Stand Up do que em suas carreiras, que ovo faz mal, faz bem, e faz mal de novo, que andar de bicicleta é perfeitamente “esquecível”, que barata pode sofrer de depressão, que mulher na presidência é como ter uma mulher na presidência, que infinito é muito na gramática e pouco na matemática, que banho de chuva é sempre mais gostoso quando se é criança, e que o Mote con Huesillo, do Parque Metropolitano de Santiago, é ruim demais.

Ao longo de toda a subida da estrada do Parque, que possibilita aos transeuntes uma vista deslumbrante da cidade lá embaixo, apareceram-nos, em cantos estratégicos, baldes e baldes de lixo repletos de latas de pêssego em calda. Até o ponto alto de nossa caminhada, aquilo ainda não nos fazia o menor sentido, exatamente como não faz para você nesse momento. Mas eis que, numa barraquinha, lá no cume do morro, a placa “Bebida típica da região” convenceu-nos a provar a tal delícia e, por fim, desvendamos o mistério das latas de pêssego.

Após o pedido ao vendedor, um copo de plástico transprente passou para as nossa mãos, saído diretamente de um latão gigante, um tantinho enferrujado e sujo. Nele tinha um líquido amarelo meio viscoso, com uns grãos aglomerados no fundo e umas grandes e alaranjadas rodelas pairando no meio do copo, de algo que mais parecia um embrião extraterrestre. Ao provar o conjunto da obra, detectamos: o líquido, conserva de pêssego em calda; o corpo estranho boiando, o pêssego propriamente dito; os grãos no fundo, milho. É! É isso que você está imaginando com o seu estômago! O mais impressionamente é que o Parque estava cheio de gente comendo (ou bebendo, ainda não sei exatamente o verbo de ação para isso) essa coisa estranha sem fazer cara feia. Então, tentamos não expor uma careta naquele momento, mas sou tão fraca! E com todo o meu rosto, disse um expressivo e mudo “Eca!”. Só que, mesmo assim, comemos tudo. Está certo, eu comi menos, muito menos, mas ajudei a acabar com aquilo. Agora, temos de tirar a má impressão da bebida (ou sei lá o que era) tentando um Mote con Huesillo de verdade. Quem sabe em outras férias? Até lá a coragem para aventuras gastronômicas retorna. Pelo menos esperamos que sim.