terça-feira, 11 de outubro de 2011

VOLTE SEMPRE

E brasileiro é um povo que trabalha feliz, sorridente, esbanjando simpatia, mesmo quando em condições difíceis, salários baixos e pouco reconhecimento.

É uma mentira deslavada. Vai lá no Maranhão para ver se você acha esse povo aí. Conta-se nos dedos de uma só mão - de quatro dedos - os que desempenharam um bom atendimento, apresentando qualquer uma dessas “qualidades brasileiras”, durante minha visitinha rápida de cinco dias.

Por que quatro dedos? Não, não estava me referindo a uma das mãos do governo anterior. O motivo é muito mais simples: porque reservo um para o cara que verdadeiramente se esforçou para ser eficiente e cordial em meio aos "profissionais" com quem tive contato. Esse, por ironia, era suíço, então, conta e não conta.

Um bocado de serviços oferecidos, desde a pessoa que guia você pelos caminhos do paraíso, como uma Beatriz mal humorada, até a pessoa que lava seu carro enquanto cai uma tempestade de poeira por cima de tudo; interação com outro bocado de trabalhadores, daqueles que sabem o que fazem, e não fazem, dos que não sabem, e fazem assim mesmo, e derivações dessa combinação; de tudo, ao menos um pouquinho, pode-se ver e sentir como acontece:

― Bom dia, amigo! ― manda o visitante de uma terra chegadinha, logo ali da Bahia, ao entrar no quiosque de um canto praiano de São Luis.

― O que você quer?

Assim mesmo, "na lata", como diriam os cariocas. Está certo. Deve ser bem desagradável trabalhar num calor escaldante, enchendo as mãos de calos no corte dos cocos, andando de lá para cá, servindo mesas e aturando todo o tipo de gente. Mais uma chance para ele:

― Vou querer uma cerveja dessa aqui, por favor. ― diz apontando o cardápio engordurado e cheio de areia.

― Dessa aí não tem.

― E qual você me recomenda?

― Se fosse pra mim escolher, você é quem tava no meu lugar, né, chefe? Volto quando resolver o que quer.

E lá se vai o brasileiro simpático atender outro cliente que acaba de se achegar ao quiosque muito bem localizado, no meio de um tanto de gente de lugares diversos, que vão lá para conhecer a terra bonita e o povo gentil.

― Boa noite. Por favor, o meu aparelho de ar condicionado não quer ligar. Acho que são as pilhas do controle remoto. Pode mandar alguém me trazer outras? ― o pobrezinho tenta mais uma vez, lá no seu quarto de hotel de padrão turístico, segundo o taxista do aeroporto-rodoviária do interior, que só troca os lençóis a cada dois dias. E nem adianta reclamar dos resíduos do hóspede anterior. Dois dias e pronto. Sem conversa.

― Vou mandar separar pilha nova. Mas vai ter que descer e pegar aqui, se quiser.

Certo de novo. Afinal, o rapaz da recepção deve estar atrás daquele balcão, recebendo as mesmas reclamações, fazendo o mesmo trabalho de preencher ficha, atender telefone etc. o dia todo, desde sei lá que horas. Mais uma chance para ele:

― Tudo bem. Vou direto à recepção?

― Não. Até a sala de refeições. As pilhas custam R$33,00.

Tudo muito óbvio, é claro. Eu não disse que era padrão turístico? Vê-se de longe, do 15º andar, para ser mais exato, o caloroso desejo daquela criatura trabalhadora de que o hóspede fique satisfeito e volte mais vezes. “Aguarde um instante que já iremos atendê-lo. Sua ligação é muito importante para nós.”

Tão importante quanto a moeda de um centavo de Real, que na verdade estorva na bolsa e nunca é lembrada. Esse deve ser o símbolo controverso do investimento na boa imagem receptiva de um ponto turístico, dentro do Brasil. É Brasil, gente! Terra de povo que trabalha feliz, sorridente, esbanjando simpatia, mesmo quando em condições difíceis, salários baixos e pouco reconhecimento...

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