segunda-feira, 18 de junho de 2012

NA VEIA

― Foi lá que eu conheci. No Brasil. Uns amigos da faculdade me ofereceram uma pequena quantidade. Depois disso, nunca mais pude me esquecer. Fiquei viciado. Ah, o Brasil, e suas belezas inigualáveis! As praias que não conheci, as mulheres... sim, mulheres muito bonitas, se me permite dizer. É com todo o respeito! Mas aquela sensação, aquela sensação ao provar o pó dissolvido e praticamente injetado, de tão ansioso que eu ficava, em lugar nenhum do Chile eu teria isso...

Depois de uma tentativa frustrada de almoçar em nosso primeiro dia em Santiago, em um local de indicação nativa, deparamo-nos com um outro chamado Mercado Central. O prédio por fora tinha bom aspecto e o movimento intenso indicava que lá acontecia algo que muita gente compartilhava. Entramos.

Estávamos certos. Muita gente passando o domingo comendo e bebendo por ali. Era um salão enorme, de teto alto e antigo, um tanto danificado e empoeirado, cercado de restaurantes de todos os modelos, cores e tamanhos, com muita sujeira, luzes, adereços e agitação.



Percorremos a extensão do mercado pela parte interna, observando cada canto, comentando os tipos, as imagens, quando de repente alguém nos aponta gritando: “Brasileiros!”. Era mais um vendedor de maravilhas (Que ótimo!) e, exatamente como num déjà vu, ofereceu-nos a sua especialidade, mas antes, desfiou um rosário de histórias sobre suas visitas ao Brasil, de como aprecia o povo simpático e as mulheres bonitas, “Com todo respeito!”.

A conversa andou. O rapaz era verdadeiramente um conhecedor de muitas coisas. E dessas coisas, confessou-nos, uma em particular o levou a um vício desenfreado, e a uma crise de abstinência sem precedentes, quando voltou para o Chile. Sim, no Chile não tem paçoca, nem fazem ideia do que seja, talvez imaginem algo como um bastão de trigo e sal, com dendê, banana, café, cachaça e purpurina.

― Foi lá que eu conheci. Ah... mas ainda lembro. Lembro perfeitamente...

E lá se foi a descrição de como o vício o consumiu. E depois de todo o blá, blá, blá, mais uma vez, não sem medo de nos arrepender, resolvemos aceitar a sugestão do almoço e nos sentamos no pedacinho do salão que correspondia ao restaurante Jóia do Pacífico.

Não demorou muito e o prato chegou, apenas um, por recomendação, pois os pratos chilenos eram fartos, uma informação que nos foi muito útil durante toda a nossa estadia por lá. Primeiro a imagem: reineta era um peixe de carne levemente rosada, estava coberto com um molho branco e, à parte, uma salada e arroz. Não sabemos se a salada e o arroz eram tão bons quanto o chefe nos afirmou, mas o peixe... Era realmente fantástico, uma combinação perfeita de temperos, preparado com um minucioso cuidado, muita precisão no tempo de cozimento, como num restaurante daqueles em que cada item do cardápio vale um salário mínimo brasileiro, mas sem a frescura da apresentação, sem racionamento na quantidade e muito, muito barato.

Então, restaurados na fé em indicações de desconhecidos e alimentados, seguimos com nossas andanças. Mochila nas costas, várias camadas de protetor solar, mapa na mão e muita disposição para conhecermos tudo o que pudesse caber em três dias. Demora bem mais para contar, mas em algum momento, eu chego no ano novo. Esse foi o nosso Natal de 2011.
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