sexta-feira, 2 de março de 2012

SUGESTÃO DO CHEFE

Acordamos. Nosso primeiro dia em Santiago. Saímos à rua com cara de turista perdido. Procurávamos algo para comer, pois era quase meio dia e não havia nada em nossos estômagos desde que embarcamos no último voo. Um longo caminho...

Parados numa esquina, mapa nas mãos, olhar por cima dos carros em busca de letreiros que anunciassem um restaurante. Um senhor passar por nós e, a poucos passos, se volta:

― ¿Yo puedo ayudarlo?

― Buscamos un lugar para comer.

O chileno aponta para uma construção à frente, atravessando duas largas avenidas e passando por uma ponte. Disse que lá era bom e barato, que no barzinho atrás de nós era caro, numa proporção de preço que conferia a um cliente aqui o valor que se serviam 100 clientes lá. Ora, era a indicação de um habitante! Fomos conhecer.

Era um mercado de frutas chamado La Vega, mas quase tudo estava fechado por ser domingo, somente no segundo piso, que era o local onde se concentrava a “praça de alimentação”, tinha movimento. Subimos uma escada suja, o ambiente cheirava a algo indescritível, pessoas despreocupadas passeavam por entre aquelas paredes, sentavam-se em banquinhos gastos, conversavam como se estivessem em um parque verde e agradável.

Em uma das laterais do prédio, aglomeravam-se umas barraquinhas de comida. Não tenho palavras para descrever a aparência daquilo, mas pode ter certeza que era feio, muito feio. Aproximamo-nos e uma criatura imensa, de avental que outrora fora branco até os tornozelos, imundo de gordura e manchas de sei lá o quê por todos os cantos, aborda-nos com a lábia de um vendedor de maravilhas e nos convence a experimentar um prato que seria sua especialidade, um Ceviche.

Sentamos e esperamos, tomando cuidado para não tocar em nada, cadeira, mesa, toalha, nada, pois em tudo tinha uma crosta de banha lamacenta. O prato chegou, foi empurrado a nossa frente por uma garçonete mal humorada. Não era bem um prato, era uma tigela funda, com uma água amarela na qual boiavam uns pedaços de bichos do mar, fatias de cebola roxa e folhas picadas. O cheiro que saía dali completava o retrato apavorante. Olhamos um para o outro, tocamos de leve com uma colher a água na tigela, olhamo-nos mais uma vez e, sem palavra, levantamo-nos juntos, largamos o dinheiro na mão do vendedor de maravilhas, que não ensaiou nenhuma questão, e saímos em passos marcados, rindo, saboreando nossa expectativa para essa viagem. Isso era só o começo.
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