sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

KRAMP

Narro o fato como se fosse um filme rodando ao contrário. Naquele instante, corpo imóvel, cobertor a proteger quase tudo, apenas a cabeça de fora, parecia mais uma tartaruga, uma espécie de casulo, silêncio quebrado apenas por suspiros ofegantes, um pequeno filete desce pelo canto da boca, talvez pelo fato de ter dificuldades em respirar, os olhos apresentam algumas sequelas e estão revirados, como se estivesse entorpecido por alguma droga. Essa inércia deveria ser interrompida. Nesse caso, o uso de um desfibrilador fosse a solução. A primeira carga contrairia apenas uma das pernas, porém as outras cargas dariam mais resultados. Encolhe o corpo e começa a se debater, contorcendo-se todo, luta desesperadamente contra um forte choque vindo da parte inferior do corpo. Não sabe o que acontece. Ainda tonto consegue abrir os olhos, tudo escuro, algo está puxando. Será que é um sonho? Sente dor. Meu Deus! O que é isso? Engatinhando, tenta ficar de pé e perde o equilíbrio, apenas uma perna está boa, a outra está totalmente torta, sendo repuxada. Em uma espécie de dança desajeitada, arremessa-se para frente e encontra algo bem maior, desfere socos e tapas, acompanhados de alguns palavrões. Em vão. Este não sai do lugar. Quando tenta recuperar o equilíbrio, tomba para o lado. Nesse exato momento, recebe um golpe abaixo da linha de cintura, mais xingamentos, porém sem revides, fazendo com que o corpo consiga voltar para o local de início. O lutador suspeita de que não se pode enfrentar o oponente de pé, fica deitado e procura uma forma de conseguir se livrar do que está entortando uma das pernas, esticando-se ao máximo possível, como se evitasse ser finalizado, hora de respirar e pensar. Por que isso? E naquele momento? Passando as mãos em movimentos frenéticos sobre a perna obtêm bons resultados depois de quase meia hora. Estava aliviado, o incômodo parecia ter ido embora. Olhando fixamente em volta, levanta e acende a luz. De fato, não era um sonho. A sua frente, o armário com o qual bateu em cheio; do lado esquerdo, vê quem lhe desferiu o “golpe baixo”, a mesinha de computador. Agora, sentado em seu colchão, lembra que já tinha ouvido falar que jogadores de futebol passam frequentemente por tal dor, mas devia-se ao fato do atleta ter empreendido muito esforço físico, o que não era o seu caso. Estava com receio de voltar a dormir, pois câimbra na panturrilha às duas da manhã pode voltar a qualquer momento, é só relaxar, relaxar e relaxzzz... Então, naquele instante, corpo imóvel, cobertor a proteger quase tudo, apenas a cabeça de fora, parecia mais uma tartaruga...

(Autoria de CBS, amigo e colaborador)

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