quinta-feira, 1 de setembro de 2011

DÍVIDA-DIVINA

Imagine Lutero, lá pelos anos de 1500, revoltando-se contra a venda das indulgências pela Igreja Católica e escrevendo as 95 Teses, que, em resumo, questionam a autoridade dos membros da Igreja e a maneira que encontraram de financiar a Basílica de São Pedro em Roma, concedendo por livre e espontânea condição de troca, um perdão por uma esmola.

Isso nos faz lembrar de algo? Pobre Lutero... Como seria agora, aqui pelos anos 2000, com a abundância de produtos e serviços oferecidos pelas inúmeras igrejas espalhadas por todo canto, em troca de uma esmolinha? Vendem-se perdões, milagres de muitos tipos, “puxadinhos” no céu, uma viagem de volta à Nova Terra... São tantos, que não vão caber na minha nem na sua paciência.

Para que o necessitado adquira uma dessas ilusões, usa-se de tudo um tudo: caixas de coletas, contas bancárias, carnês, agentes especializados que vão recolher sua contribuição no endereço de sua residência, do seu trabalho, e dar baixa na sua dívida daquele mês para com o deus de sua crença.

E são muitos os que correm com vontade atrás disso. Vão com tanta fé buscar o que consideram indispensável, essencial, inalcançável por suas próprias forças, que não pensam, nem por um minuto, na inconsistência de uma atitude assim. Pagam o que for preciso para serem felizes, para serem perdoados sem esforço de consciência. É possível tornar-se uma boa pessoa se tiver dinheiro e uma igreja com bons produtos em oferta.

É lastimável que ainda hoje tenha desse tipo de ingenuidade. E já que não se pode lamentar a esperteza, que alguém, um requerente fiel, pare e pense um dia sobre os motivos que impulsionam a troca de uma concessão divina por papel pintado, e perceba o quanto isso é cômodo, superficial e ilegítimo.

Em tempos atuais, em que igrejas são erguidas com a mesma facilidade que se traduzem Bíblias, vamos ainda esperar que haja mais pessoas empenhadas em fazer por elas mesmas o que de fato pode ser feito. Autonomia e coragem para conseguir o que desejam, com esforços reais, de base refeita, de reconstrução sincera das intenções. Uma satisfação merecida não porque pagou, mas porque teve nobreza de espírito. Esperemos.

“E que confiem entrar no céu antes passando por muitas tribulações do que por meio da confiança da paz.” (Tese de número 95)

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