sábado, 16 de julho de 2011

IGUAIS E SEMELHANTES

Um amigo me disse certa vez que o seu relacionamento conjugal era baseado em lealdade e não em fidelidade, pois para ele eram coisas diferentes. Mas é claro que são diferentes. A Língua Portuguesa faz dessas com a gente. Diz que palavras são sinônimas e define sinônimo como a classificação de alguma coisa que tem o mesmo significado que outra. Nem se dissesse que o significado é aproximado estaria sendo coerente. No máximo, podem conter um mesmo princípio básico, como um rochedo e um grão de areia, mas daí dizer que são iguais ou semelhantes em significação é outra conversa.

Não existem duas palavras de mesmo significado para se dizer a mesma coisa. Quando eu digo que algo é bom ou que é legal, estou dizendo a mesma coisa? Todo mundo vê que não. Se fosse para dizer a mesma coisa, diria que algo bom é bom e pronto. Quando escolho a palavra legal, estou estendendo o significado para outras áreas. Legal é gíria e pode ser bem mais divertido do que bom, é mais descontraído, mais comum no discurso coloquial. Já para o bom se tornar não-ruim e divertido ao mesmo tempo, dá mais trabalho.

O fato é: se ficarmos atentos ao que falamos e ao que ouvimos, iremos perceber sutilezas como essas que fazem da Gramática Normativa a coisa mais mal falada durante nosso processo de aprendizagem, e depois dele também — o mundo virtual está aí para comprovar. Quanta ruindade naquelas regrinhas de acentuação! E a separação silábica? É um veneno só. A malvadeza se espalha por todos os verbos e locuções! É um tormento só em olhar!

Mas, em vez de propormos uma trégua, a gente briga. E reclama. Cadê o tal sinônimo perfeito? Está escrito aqui que tem que ser palavra com o mesmo significado que outra ou que outras. E agora? Um relacionamento em que a fidelidade não é fundamental e sim a lealdade vai fazer diferença em Morfologia?  Discutir a respeito de ser verdadeiro sem ser sincero ficará complicado para a Semântica. Faz sentido estar triste sem estar infeliz? Concorda que alguém pode ser agradável sem ser necessariamente simpático?

Usamos a comunicação como achamos melhor para expressar nossos pensamentos e sentimentos. E, ao contrário do que muita gente pode pensar, a Gramática Normativa não dificulta esse mecanismo. Temos que conhecê-la para saber como nos orientar. Só não vale ficar apontando o dedo e culpando o pobre bloco de perversidades. O importante é conseguirmos unir eficácia com o mínimo de boa linguagem. Se tiver como colocar um pouco de estilo, melhor ainda. No geral, funciona assim: a gente cria uma condição confortável a partir do que conhece e entende, e assim tentamos nos fazer compreender. Sem briga.

Está certo, nem por isso fica menos difícil. Os relacionamentos afetivos também não. O meu amigo pode confirmar. Mesmo com uma base substantiva, que ele julga menos complexa, não segue manual nenhum e não cumpre a palavra por definição, o que o torna distintamente semelhante a todos os outros. Só porque as cobranças e os conflitos podem mudar de função sintática, não quer dizer que alguém será mais bem sucedido. Apenas cabe a nós simplificar o que nos complica. E um bom começo é não se alterar mais com a falta de uma definição melhor para sinônimos. Isso é certo! A Gramática fica para nos dar assunto, pois não é por conta de flexões, sintagmas, interjeições ou preposições que fundamentamos princípios ou nosso comportamento. Para a vida, o que conta mesmo é a busca de um significado único, invariável e totalmente conjugável: a Felicidade. Vê só se essa tem sinônimo que se compare!

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