quinta-feira, 7 de julho de 2011

COTILÉDONES

Em uma noite assim, não precisamos da habitual fogueira no terreiro. É só esperarmos a chegada dos vizinhos mais próximos, a Dona Nena e o Seu Moraes. Eles moram longe, não sei bem o quanto, mas canso de tanto andar no meio do mato quando vamos visitá-los. Ela é calada, tem sotaque engraçado, parece que mistura nossa língua com a dos índios. Já ele é falador, um linguajar rápido, meio embolado, “matraca mais do que a nêga do leite”, como diz mãe.

Meus irmãos e eu gostamos de brincar de esconder tesouro quando está claro assim. Podemos ficar horas correndo de um lado para outro, procurando uma boneca feita com sabugo de milho que serve como nossa pequena fortuna. Mas quando nosso pai se acomoda ao lado dos nossos vizinhos, paramos para ouvir. Ele é quem tem as melhores histórias, tem o melhor jeito de contar, olha para cada um para prender ainda mais nossa atenção. Nós ficamos sentados, formando uma roda que, de início, é animada com piadas e passagens engraçadas: “... foi quando Dona Zefinha perguntou, olhando pro rádio: ‘ô seu Lauro, cumé qui si faz pra colocá essis homi tocadô aí dento dessa caxa?’”. Ou então, com perguntas como: “De qual lado o cachorro tem mais pêlos?”.

Eu não me arrisco em uma resposta. Interessam-me as histórias de terror. “Todas reais”, dizem. Algumas são contadas de geração em geração; outras, vividas pelos próprios narradores. São essas, autenticadas pela presença da personagem principal, que dão mais medo. Nem mesmo explicações científicas posteriores amenizam a sensação sobrenatural, como a que contaram semana passada sobre o fogo-fátuo, a tal núvem-fantasma que seca os animais da floresta.

Hoje, há uma promessa cheia e clara para se falar sobre criaturas da noite, que vivem de tirar a vida do outros, que correm atrás de meninas e meninos rebeldes, desobedientes a papai e mamãe. Monstros, cujas enfermidades e os tormentos porque passam, vieram de maldições. Maldições de família. E meu pai não deixava mesmo se perder nenhum desse detalhes:

― Lá no Crato, há uns dez anos, aconteceu um caso de lobisomem. O povo até hoje fala. Desconfiavam do finado Vicente Fino. Escutem...

A palavra “finado” me dava um arrepio na espinha. Aceitava com menos aflição os seus sinônimos, achava até que amenizavam o estado cadavérico do defunto. Era a cena da tensão apreensiva que nesse instante começava em nosso filme verbal:

― ...Zé de Bidias me contou que o finado Vicente, nessa época ainda menino, levava o almoço para o pai, lá na roça onde trabalhava. Ia sempre reclamando do que havia comido, quase sempre um punhado de farofa de pão feita só com gordura do toucinho. Um dia, a alguns passos de onde deveria chegar, parou. Sentou-se próximo a um arbusto seco, tirou o prato da rodilha e comeu os poucos pedaços de couro de porco que lá encontrou, sem pensar no que fazia, só queria saciar a fome que ainda sentia e saber como era o gosto daquilo. Seguiu o caminho arrependido, pensando no que diria a seu pai e resolveu mentir, dizendo que a mãe só mandou o baião-de-dois porque um homem almoçou lá na casa deles. Ela estava grávida de sete meses. Morreu assassinada pelo marido com sete facadas. Mas, na agonia da morte, amaldiçoou o filho Vicente, prenunciando que, ao se tornar homem, uma besta iria tomar seu corpo: “você, filho ingrato, vai correr as sete noites de lua redonda atrás de carne, igual a um bicho feroz e faminto, tendo o uivo como alívio de sua dor. E assim será durante sete anos”.

Pronto! Ninguém mais sai para ir ao banheiro sozinho. A casa à luz de candeeiro, cheiro de querosene e sombras para todos os lados é o nosso labirinto de medo o resto da noite. O pote de barro com água fresca fica distante da rede, precisamos atravessar um corredor largo e comprido. Todo o tipo de criatura aparece nas paredes e os sons de fora completam o cenário plantado em nossas mentes. O jeito é dormir com sede.

Na manhã do dia seguinte, será uma briga. Certamente faremos xixi na rede de novo. Mãe tentará nos convencer a não ouvir mais essas histórias com ameaças e chantagens. Em vão. Sem televisão, livros, rádio ou qualquer outro acessório moderno para transformar crianças travessas em anjinhos de pedra, acabamos descobrindo o que ser e como ter pela imaginação. Bastam alguns contadores de histórias em nosso terreiro, os melhores de nossa infância, e estaremos fascinados mais uma vez, olhos e ouvidos apurados, imóveis, esperando, mudos, o próximo número de mágica.

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