sábado, 2 de julho de 2011

"ALCANCE O IMPOSSÍVEL"

“A energia das ondas... a resistência das pedras... a força do vento... Para superar seus limites, é preciso acreditar que eles não existem... Ironman, a nova fragrância masculina da Avon” (Divulgação no site Memória da Propaganda).

O ponto de vista é tudo, diria Nietzsche. Um princípio argumentativo que viabiliza a apresentação de ideias convincentes e bem organizadas pode conseguir mais do que promover a verdade e a propagação do conhecimento. Sim, todo o conhecimento busca a verdade. Mas, a exemplo do que observamos hoje em dia, principalmente nas relações comerciais, em que a lógica consiste em ganhar dinheiro, tem-se a verdade através dos lucros. E estar em oposição à verdade não é bem estar na mentira.

Para uma multinacional, que emprega milhões em divulgação do seu produto artificial, que polui e que pode causar câncer, a premissa de que há pontos negativos em sua atividade é verdadeira? Claro que não. Há de se convencer de que seu produto, se bem consumido, bem utilizado, não prejudica em nada. Mas aí, a empresa vai investir no preparo de seus consumidores? Também não. Provavelmente isso fica para depois, caso esteja perdendo terreno. Simplesmente uma “carta na manga”, que auxilie na jogada de marketing ideal para se manter o rio do bom faturamento em plena enchente.

Atualmente, “a arte de usar a linguagem para comunicar de forma persuasiva e eficaz” está em quase tudo a nossa volta – o “quase” vai ficar aí para o “tudo” não se sentir dono da verdade. A propaganda é um bom exemplo de como estamos evoluindo nesse campo. Em campanhas cada vez mais engenhosas, a propaganda está, inclusive, nas coisas em que deveríamos naturalmente perceber como essenciais. Mas ela está lá, num outdoor bonito, grande e colorido, lembrando que somos seres humanos e que devemos respeito à vida, usar o cinto de segurança, não jogar lixo em vias públicas; também diz que você deve fazer um curso de línguas, deve ter um carro novo, mais potente, tão potente que nunca poderá testar isso, ou vai se matar ou matar alguém; deve contratar um serviço de segurança, um plano de saúde que pode de fato tratar você como gente; que deve votar democraticamente, pagar os impostos, cobrar seus direitos e precisa comprar, comprar e comprar.

Pois então, vamos lançar um novo produto para acabar com insetos. Faz mal à saúde das pessoas, mas quem precisa saber? Os insetos realmente morrem, de verdade, eles não fingem nem ficam com super-poderes. É eficaz, não mancha, não deixa cheiro, e ainda faz com que o inseto contaminado mate todos os seus comparsas. Mas não vai matar o seu gato, caso resolva fazer do inseto um lanchinho. Pode ser que fique muito doente, mas não dá para matar. Isso é exagero.

É a manipulação da propaganda que faz dela um retrato do que podemos fazer com a honestidade e com as boas intenções. E aí, quando de fato aparece um caso desinteressado, quem é que acredita? Por que não confiar que alguém, que vai ganhar muito dinheiro lançando um produto, não está de jeito nenhum pensando no lucro e sim na felicidade das pessoas? E o que acha da boa intenção de um cientista ao descobrir vestígios de vida em outro planeta? Ele divulga isso pensando no bem estar da humanidade ou na compra de sua imortalidade na história? Você acreditaria? Pois deveria. Devemos ter boa fé, mesmo que desconfiados. Para isso, existe nossa razão, nossa capacidade de refletir sobre os argumentos bem construídos, e nos perguntarmos sempre se essa lógica tenta nos construir ou nos fazer de bobos.

Temos o poder de usar o nosso ponto de vista. Isso ainda não é proibido nem se cobra taxa de utilização. Seja para considerarmos a veracidade de um evento científico ou a intenção de um anúncio simples de tintura para cabelos, que nos acostumemos ao bom hábito de usar o cérebro. Dessa maneira, poderemos alcançar o limite de nosso bem estar, experimentando a vantajosa sensação Ironman, porém, conscientes de que é totalmente possível.

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Um comentário:

  1. O Frank ficou ótimo! Passar pelos tópicos de maneira indireta foi uma boa estratégia, sutil. Merece um peixe nordestino!

    Beijo!

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