sexta-feira, 10 de junho de 2011

LIÇÃO DE CASA

As crianças refaziam, a perder as contas, o tal círculo que serviria de base para a figura final. Muitos traços tortuosos, por causa da pouca prática nesse tipo de aventura, deixavam dúvidas sobre o que intencionavam desenhar.

A professora orientava que, depois de unir as duas pontas da linha, uma “perninha” começaria a nascer pelo lado indicado na lousa e, assim, teríamos a primeira letra do nosso alfabeto, o que me desanimava bastante, já que teria de presenciar o nascimento de cada uma das partes de cada uma das vinte e seis letrinhas. Sentia-me como um obstetra alterado.

Ao fim do exaustivo exercício, precisava conferir e elogiar o trabalhinho de meus assistidos, Janice e Léo. Um casalzinho simpático que não se suportavam (e quem suportaria?) e que se tornaram minha mais doce pena, por ter invadido a sala dos professores para descobrir quem era o namorado da professora de francês. É que ela é a única da escola que merecia minha pirraça adolescente. Hormônios descontrolados e imaturidade no mesmo recipiente não combinam, vamos ser sinceros.

Janice desenhou uma coisa parecida com um biscoito velho, de aspecto estragado; pois, o que deveria ser a “perninha” da letra, mais denunciava a impressão do mau cheiro oscilante que provinha da lateral e se dirigia para cima, como que para alcançar o seu próprio narizinho, tão pertinho da mesa.

Léo, que na verdade se chama Levir, mas herdou o apelido de uma tia que é doida pelo cantor sertanejo, que não é sertanejo, Leonardo, desenhou uma argola meio gelatinosa. Uma obra surreal, certamente. O traço me fez lembrar o de um grande arquiteto famoso que não me lembro o nome agora. Espero que o menino não tenha melhorado nesse ponto.

Todos os dias, depois da minha aula, durante seis meses, eu precisaria estar na cola dessas duas criaturinhas adoráveis, de comportamento mais do que ativo. A intenção era me fazer perceber o quanto se pode aproveitar a criatividade em desenvolvimento próprio e de outras pessoas. Isso foi o que me disseram. Mas o que percebi na época foi o quanto pode ser chato e cansativo um comportamento inconveniente, quando dirigido a mim; e o quanto eu era parecido com esses dois, apesar da distância de idade.

Certo dia, ajudei-os a pintar um cartaz fixado no corredor que transmitia uma mensagem sobre o aniversário da escola. Só não chegou a ser ato de vandalismo porque a mensagem comoveu os funcionários. As crianças desenharam corações e sóis. Eu tentei desenhar o rosto deles.

Passamos a ser três cúmplices de traquinagens durante dois meses, pois o tempo de monitoração não durou o que foi previsto. Acho que repensaram essa coisa de quem aprende o quê e viram que, enquanto eu me “endireitava”, as crianças se corrompiam com minhas ideias descabidas.

Não cheguei a ver o nascimento das outras letrinhas e, ao final daquele ano, não vi mais aqueles pestinhas. Voltei a andar com minha turma de despreocupados, a falar como um rinoceronte gago e a compartilhar os interesses típicos de minha idade. Também comecei a investir num novo plano para chamar a atenção da professora de francês.

Mas nem tudo foi perdido. Naquele período foi plantada uma sementinha que me levaria a um futuro diferente do que eu pensei quando criança – eu queria ser delegado. Acabei percebendo, bem mais tarde, o quanto eu era bom em continuar a ser criança e o quanto elas, as crianças, me entendiam. E usei isso para me tornar o que sou hoje: um multiplicador de histórias.

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2 comentários:

  1. Estava passando e resolvi deixar este poema que lí em um livro do Mário Quintana:

    Bilhete

    Se tu me amas,
    Ama-me baixinho,
    Não o grites de cima dos telhados,
    Deixe em paz os passarinhos,
    Deixe em paz a mim,
    Se me queres
    Enfim,
    Tem que ser bem devagarinho, Amada,
    Que a vida é breve, e o Amor, mais breve ainda.
    (Mário Quintana, Nova Antologia Poética)

    Um beijo da sua sobrinha Isabelle!

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  2. Olá tia,
    vim passando e decidi dexar meu rastro novamente:

    As vezes as pessoas pensam que podem ter tudo o que querem num simples estalar de dedos, nunca é assim. Muitos sonham em uma coisa, casa, uma nova vida, ou até mesmo outros tipos de sonhos (música, esporte, ganhar na mega sena).
    As pessoas nunca param pra pensar:
    "É isso que eu quero! É por isso que eu vou lutar!" Nunca pensam nisso, sabe; é sempre "Ai, como eu queria...!"
    Todos se esquecem de que, se é disso que elas querem, elas devem lutar, mas em vez disso, apenas dexam seus sonho em uma gaveta vazia e escura com uma frase assinada "Quem dera..."

    Moral: todos temos sonhos, sempre o dexamos pra depos, sendo que, se é isso que você quer realmente dve lutar até o fim.

    Tia, é essa a minha reflexão sobre o que já disse, sonhos não caem do céu!
    Um beijo estou morrendo de saudades!!

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