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Cavalo de Tróia

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Consumimos tecnologia ou ela nos consome?  A compra de qualquer produto dentro de uma casa, onde o que impera é a comunicação, importante é o poder do convencimento, mesmo sabendo que tal produto pode agradar mais a um do que o outro...  ― Mô, comprei umas panelas que são a nossa cara, modernas, práticas, esmaltadas e muito bonitas; cozinham nossas refeições em instantes, sem deixar queimar, enquanto fazemos outras coisas! Depois é só colocar o bife no grill e tá tudo pronto. Assim, teremos muito mais tempo um para o outro!  Temos aqui, uma "culinária de tomada", é só plugar! Ela convenientemente convence o marido a adquirir um par dessas praticidades, claro que com a preocupação de não ser taxada de preguiçosa, pois, tratando-se de forno e fogão, a sogra é uma excelente cozinheira, e totalmente avessa a tecnologias ― com muita dificuldade ainda aceita microondas para fazer pipoca de saquinho.  ― Claro, Vida! Quero você o mais longe possível da ...

Na veia

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― Foi lá que eu conheci. No Brasil. Uns amigos da faculdade me ofereceram uma pequena quantidade. Depois disso, nunca mais pude me esquecer. Fiquei viciado. Ah, o Brasil, e suas belezas inigualáveis! As praias que não conheci, as mulheres... sim, mulheres muito bonitas, se me permite dizer. É com todo o respeito! Mas aquela sensação ao provar o pó da paçoca, que eu praticamente injetava de tão ansioso que ficava para consumir o quanto achasse... aquela sensação eu não poderia ter em lugar nenhum do Chile. Depois da tentativa frustrada de almoçar Ceviche no primeiro dia em Santiago, a gente se deparou com um outro local popular chamado Mercado Central . O prédio por fora tinha bom aspecto e o movimento intenso indicava que lá acontecia algo digno de ser compartilhado. Entramos.  Estávamos certos. Muitas pessoas passando o domingo comendo e bebendo por ali. Era um salão enorme, de teto alto e antigo, um tanto danificado e empoeirado, cercado de restaurantes de todos os...

O tempo dos 30

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― Tia, você fala muito difícil! E eu pensava que era a pessoa mais simples do mundo. É muito difícil encontrar quem nos entenda como nós mesmos. Isso às vezes nos faz muito solitários, agora está mais do que claro. Estaríamos menos sozinhos se fôssemos mudos? Talvez. Mas a linguagem é apenas uma dentre tantas coisas que já não compartilhamos. Por exemplo, a profissão de datilógrafa. Eu mesma fiz um curso achando que seria muito útil. Foi um sacrifício só. Passava o dia na escola apenas com um pão e uma garrafinha de água, esperando a hora da aula. Treinava numa Olivetti antiga, com as letras todas cobertas com corretivo branco. Tinha que aprender a digitar sem olhar o teclado. ― Tia, o que é isso? ― É uma máquina de escrever, criança. ― E onde é a tela que aparece o que a gente escreve? Pois é. Minha geração e a da minha sobrinha, mesmo tão próximas, já não se entendem direito e não vemos a mesma realidade. Mesmo mundo, outra rotação. Eu agora com 30 anos e ela com 14...

Sugestão do chefe

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Acordamos. Nosso primeiro dia em Santiago, Chile. Saímos à rua com cara de turista perdido. Procurávamos algo para comer, pois era quase meio dia e não havia nada em nossos estômagos desde que embarcamos no último voo. Um longo caminho... Parados numa esquina, mapa nas mãos, olhar por cima dos carros em busca de letreiros que anunciassem um restaurante. Um senhor passa por nós e, a poucos passos, se volta: ― ¿Yo puedo ayudarlo?  ― Buscamos un lugar para comer.  O chileno aponta para uma construção à frente, atravessando duas largas avenidas e passando por uma ponte. Disse que lá era bom e barato, que no barzinho atrás de nós era caro, numa proporção de preço que conferia a um cliente aqui o valor que se serviam 100 clientes lá. Ora, era a indicação de um habitante! Fomos conhecer.  Era um mercado de frutas chamado La Vega, mas quase tudo estava fechado por ser domingo. Somente no segundo piso, que era o local onde se concentrava a "praça de alimen...