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Entrevista

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A fila se forma de maneira rápida e se dissipa com a mesma velocidade do lado de fora. Os agentes, altamente treinados, organizam com vontade toda aquela multidão e a empurra para dentro do edifício. Celulares, aparelhos eletrônicos de qualquer tipo, objetos cortantes, pontiagudos, armas de fogo, terroristas portáteis, tudo fica do lado de fora. Lá dentro, muita gente para organizar e mais ainda para ser organizada. Fila, muita fila: para passar no detector de metais, para chegar ao primeiro balcão, deixar o passaporte, depois pegar a senha, depois para esperar. Um amontoado de gente que teve de agendar o atendimento exatamente no mesmo horário (isso ainda não entrou numa era moderna mais inteligente, paciência!); um atrás do outro ainda para marcar as digitais e, enfim, a fila de espera para a entrevista.  Os momentos em formação militar são os mais lembrados. Observa-se tudo: o comportamento dos funcionários de crachá e rádio na mão; os cinturões que marcam e organizam...

Última chamada

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Acho que todo mundo já passou por uma situação em que ouvimos uma coisa diferente do que está sendo dito. Verdade? Sabia! No meu caso, demorou um tempo para perceber. Precisei me dominar primeiro, conformar-me com pelo menos mais uma viagem de avião para, então, alcançar a mensagem obscuramente oculta por trás de todos aqueles informativos, que fatidicamente devem ocorrer em todos os voos, sejam para perto ou para longe.  E, se você ainda não se apercebeu da questão, o que é normal, já que estou contando isso com a linearidade de um bêbado caminhando com suas próprias pernas, vou levá-lo ao ponto da conversa em que meu cérebro, já esperto, enfim compreendeu os tais comunicados:  ― Senhores passageiros, bem-vindos ao voo 456, com destino a Brasília. ― É o que eu ouvi, mas não é o que estão dizendo. Certeza. O que querem mesmo que a gente entenda é o seguinte: "Se você não é desse voo e não está indo para esse lugar, caia fora agora mesmo. É sua última cha...

Época genial

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Em uma ocasião de total despreocupação, sentei-me ao lado do meu professor de filosofia na faculdade, durante o intervalo do seminário semestral de Literatura e Cultura, proporcionado pela instituição de ensino que frequentei há uns anos. Ele era um senhor de moderados gestos, fala calma, tom sincero e sábio. Tudo nele combinava com um filósofo, pelo menos com um que eu idealizava. Ouvi-lo, mesmo contando o caso mais banal, era sempre um aprendizado, um mestre nato. Estávamos lá, olhando o movimento das pessoas e falando sobre programas de televisão em nossos dias. Muitas opiniões comuns, discursos surrados que ouvimos sobre exposição da violência, da imoralidade, da futilidade... essas coisas que estão aí na tela, é só ligar o aparelho e colocar em qualquer canal. O assunto evoluiu até chegarmos às personalidades inteligentes. Durante a conversa, concluí que eu tinha uma pontinha de tristeza por ter nascido numa época em que não se ouvia falar muito dos grandes gênio...

Kramp

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Narro o fato como se fosse um filme rodando ao contrário. Naquele instante, corpo imóvel, cobertor a proteger quase tudo, apenas a cabeça de fora, parecia mais uma tartaruga, uma espécie de casulo, silêncio quebrado apenas por suspiros ofegantes, um pequeno filete desce pelo canto da boca, talvez pelo fato de ter dificuldades em respirar, os olhos apresentam algumas sequelas e estão revirados, como se estivesse entorpecido por alguma droga. Essa inércia deveria ser interrompida. Nesse caso, o uso de um desfibrilador fosse a solução. A primeira carga contrairia apenas uma das pernas, porém as outras cargas dariam mais resultados. Encolhe o corpo e começa a se debater, contorcendo-se todo, luta desesperadamente contra um forte choque vindo da parte inferior do corpo. Não sabe o que acontece. Ainda tonto consegue abrir os olhos, tudo escuro, algo está puxando. Será que é um sonho? Sente dor. Meu Deus! O que é isso? Engatinhando, tenta ficar de pé e perde o equilíbrio, apenas uma pern...