quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

CARDÁPIO SINESTÉSICO

Depois da euforia inicial com as novas sensações gastronômicas das nossas férias no Chile, fomos tentar novas sensações, com outros sentidos, subindo o Villarrica.

Esse pedacinho do Chile esteve em pânico a última vez em 2010 (um ano antes de nossas férias), por causa do aumento de sua atividade. O vulcão nunca desfez a cara de mau e vive com seu chapéu de fumaça no topo. O povo da região teve sua última grande perda em 1971, com uma grande erupção, e em 84 sofreram outra ameaça grave, mas já estavam preparados para não terem de enterrar as consequências.

Agora, estávamos lá, no pé da grande montanha, no meio de um dos rios de lava seca, com formatos assustadores de uma grande catástrofe. Estávamos decididos a chegar até La Casa del Diablo, uma de suas crateras extintas mais visitadas. Olhamos em volta. Tudo o que precisávamos fazer era seguir a trilha que apontava para o trecho da mata não afetada pelos filamentos de fogo de 71.

A caminhada tinha o começo agradável, muitas árvores, flores, plantas coloridas e muitas placas indicavam que um dia, naquele lugar, houve animais de pequeno, médio e até grande porte, mas o que se conseguia ver mesmo eram muitos, muitos lagartinhos, besouros e mosquitos. Nem pássaros eram tão presentes. Talvez por isso, essas coisinhas menores não tivessem que lutar pela sobrevivência, e se espalhassem por todo o lado, com espaço de sobra para se multiplicarem.

Depois de uma hora e meia andando em ziguezague, subindo lentamente em círculos, a sede, o cansaço e o calor começaram a pesar. Continuamos até que, em um determinado ponto, a floresta cai numa extensa vala, como se tivesse passado por baixo da terra um dos braços do rio destruidor de lava, fazendo com que o chão e as árvores se jogassem no vazio. No meio desse fenda, um riacho magro, de água gelada, vinda do vagaroso derretimento da neve que nunca morre. Fomos até o fio dessa água, lavamos o rosto, os cabelos, esfriamos nosso consaço.

Desse ponto em diante, um companheiro a mais na viagem, um grande besouro barulhento e brilhante descobriu-nos. Seguiu-nos não disposto a amizades. O ritual era de agouro, voando em torno de nossas cabeças como se fôssemos animais agonizantes, fazendo-nos bater os braços enquanto as pernas trabalhavam. Curiosamente aquele bicho tinha uma gangue, e todos, em solidariedade, vinham ao seu encontro, assim que este era atingido. Os amigos também entravam em órbita em volta de nós, zumbindo e dificultando nossa nada fácil tarefa.

Uma curva, sol, sombra, uma palmada no besouro, outra curva, subindo, subindo, a indicação da trilha, mais curva, mais subida, mais besouros, e, de repente, depois de uma curta virada, lá estava ela, branca e brilhante, em um pequeno círculo no solo. Vi essa imagem por alguns minutos, inquieta, movendo-me para todos os lados, contente de estar vendo neve pela primeira vez. Chegamos perto, um pé por cima dos cristais, com cuidado para não sermos engolidos por alguma surpresa líquida. O outro pé, fomos andando devagar até ficarmos bem no centro do círculo, sentindo o vapor frio se misturar com a ardência dos raios solares queimando a pele.

Paramos por uns minutos ali, fotografando e observando tudo. Foi quando veio a brilhante ideia: neve de água da chuva, em uma região não habitada... Água limpa! Cavamos o mais fundo que conseguimos, retiramos um punhado daqueles flocos de gelo e comemos, uma, duas, três vezes, para matar toda a nossa sede. Bebemos neve eterna do vulcão Villarica para poder continuar nossa aventura.

Logo em seguida, chegamos à cratera. A imagem daquilo nem sei se posso descrever. Mas a sensação era de que realmente ali morava El Diablo, Dante não teria desenhado cenário melhor para isso. Sentamos no alto de uma grande pedra de lava seca, olhando a paisagem lá embaixo, o caminho por onde subimos, as montanhas mais ao longe, o céu, o cume branco da montanha, o verde resistente da floresta de insetos. Descansamos com os olhos cheios daquela paisagem misturada, ambígua e confusa de beleza e destruição. Todo o sacrifício valeu aquele momento.

Já o fato de comer neve eterna... bem, não aconselhamos que façam isso em casa. Se estiverem diante de um bom punhado de gelo, retirado da base de um vulcão em atividade, pensem: isso está contaminado com enxofre e vai lhe causar febre alta, mal estar e sérias dores abdominais por três dias. Experiência própria.
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domingo, 4 de novembro de 2012

CONVERSA FRANCA

Quando você pensa que é uma pessoa resolvida, esclarecida, fez duas faculdades, uma pós-graduação, entende de arte, política e cozinha, é aí que compreende que esteve enganado, muito enganado, sobre sua própria inteligência.

Um dia no novo trabalho, o primeiro, você é a pessoa que sabe menos sobre o exercício do novo ofício. E se depender do colega aí do lado, vai continuar sendo por muito tempo. Ninguém quer gente como você. Sempre soubemos disso, aí vem as expectativas de um novo emprego, novos aprendizados, desafios, e deixamos as certezas de lado e partimos para a briga. Mas a luta cansa. Tirar informação de alguém é quase como um dia inteiro de caminhada, usando sapatos apertados, debaixo de sol quente, sem água, comida, ou um saquinho de bolha.

Quando chega em casa, está assim, sentindo-se um lixo, um qualquer de inteligênciazinha medíocre, que não consegue mais concatenar duas informações simples, pois é claro, quando você quis saber do tal novo índice para concluir sua apresentação, todos lhe responderam prontamente com expressões: “É uma apresentação muito importante.”, “A economia muda muito.”, e todos mesmo tiveram sua contribuição para a dúvida que pairava em sua cabeça. Ah, sim, a dúvida agora está bem maior.

Segundo mês no novo trabalho, você ainda não sabe tudo o que deveria saber. E se depender do colega aí do lado, vendo slides de auto-ajuda, com ursinhos fofinhos e frases distorcidas, atribuídas à Fernando Pessoa, vai continuar assim por muito mais tempo. Seu chefe o chama em sua sala, na sala dele, do chefe, para não ter ambiguidades aqui. O chefe cobra o seu trabalho. Afinal, você teve um instrutor, um cara que está se esforçando para fazer de você um outro dele, porém um modelo mais avançado, mais esperto, mais eficiente, porque as expectativas são de que você supere todos! Todos!

O chefe continua a cobrança, ele se irrita, grita: quem você pensa que é para fazer corpo mole? “A porta da rua é a serventia de quem está incomodado”, como diria minha amiga lá da recepção. Ele gesticula, grita mais alto e, no fim, você está despedido! Você não tem o que fazer. Vai para casa. Atualiza o currículo. Amanhã sairá bem cedo a procura de outro emprego. Talvez ache um que aceite suas pobres limitações.

Concordo plenamente, esse final não foi tão dramático quanto o do Sidney, mas estou tentando. Um dia chego lá.
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domingo, 2 de setembro de 2012

LIÇÃO DA VIDA

— O senhor está despedido! O pobre homem não acreditava no que ouvia. Tremeu da cabeça aos pés e o nervosismo apoderou-se dele. Quis falar, mas os lábios trêmulos se fecharam, sentindo a língua presa.

— Mas, “seu doutor”...

— Não me interrompa. Eu sei o que é melhor para a empresa. O senhor é um funcionário antigo, seu salário é alto, mas a sua produção é a mesma, se não, menor.

— Mas, ...

— Nem mas, nem meio mas. Cale-se! – e o diretor continuou a dissertação. – Com o seu salário posso contratar dois universitários, e os inscrevo como estagiários, e fico bem na fita com o presidente. A fila anda! A vida é assim!

O diretor, homem enérgico e prepotente, não parava de gesticular. Sua voz fluía rápida e sequer respeitava o drama vivido pelo pai honrado e trabalhador, e prosseguia:

— O mundo, graças à tecnologia moderna, não tem lugar para pessoas que não produzem acima da sua própria potencialidade...

O funcionário já não mais o escutava. Seus pensamentos retrocederam no tempo. As antigas lembranças se fundiam às mais recentes. Nesse estado emocional, via um pequeno prédio, paredes mal pintadas, mesas rústicas que contrastavam com outras mais novas de tampos de vidro e de aço.

Mecanicamente limpa os óculos e a testa, onde corria o suor e, neste exato momento, verificou que a antiga iluminação lhe roubara a visão. Mas, só lhe roubara a visão? Não! A sua empresa – ele vivia para ela – roubara-lhe muito mais. Rouba-lhe a viço da juventude, a rigidez dos músculos, a flexibilidade dos nervos e articulações, o tempo aos filhos e o próprio diálogo com a esposa.

Sua lembrança não faz esquecer que esse mesmo diretor que o despedia, pasta moderna de couro, gravata italiana, notebook e telefone celular, não o cumprimentava. Ele se perguntava: “Será que a humildade é uma moléstia? Será que a prepotência une os seres em prol de um objetivo coletivo e mútuo?” As perguntas ficaram no ar. O fato é que a prepotência vencera a humildade. A demissão fora consumada.

Semana seguinte, o diretor, no papel de galo pimpão, recebia alternadamente duas novas estagiárias.

— Bom dia, linda! Que bom que você veio. Almoçamos hoje, gatinha?

À tarde, com a outra nova contratada.

— Nossa! Que colírio para os meus olhos!

Porém, a morte que a tudo assistia, colocou o diretor e o despedido em covas bem próximas. E DEUS aplaudiu o último ato.

(Sidney Tito - sidneytito.blogspot.com)

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

O TÍPICO DA DIFERENÇA

Há coisas na vida que você precisa aprender antes de conhecer outras terras, outras pessoas, outros sabores, outras coisas... Eu , por exemplo, tive que aprender o que é de verdade água com sal e açúcar no jantar, que duendes só existem na casa da Xuxa, que CD só toca de um lado, que Paulo Coelho e Hebe Camargo são mais apreciados em Stand Up do que em suas carreiras, que ovo faz mal, faz bem, e faz mal de novo, que andar de bicicleta é perfeitamente “esquecível”, que barata pode sofrer de depressão, que mulher na presidência é como ter uma mulher na presidência, que infinito é muito na gramática e pouco na matemática, que banho de chuva é sempre mais gostoso quando se é criança, e que o Mote con Huesillo, do Parque Metropolitano de Santiago, é ruim demais.

Ao longo de toda a subida da estrada do Parque, que possibilita aos transeuntes uma vista deslumbrante da cidade lá embaixo, apareceram-nos, em cantos estratégicos, baldes e baldes de lixo repletos de latas de pêssego em calda. Até o ponto alto de nossa caminhada, aquilo ainda não nos fazia o menor sentido, exatamente como não faz para você nesse momento. Mas eis que, numa barraquinha, lá no cume do morro, a placa “Bebida típica da região” convenceu-nos a provar a tal delícia e, por fim, desvendamos o mistério das latas de pêssego.

Após o pedido ao vendedor, um copo de plástico transprente passou para as nossa mãos, saído diretamente de um latão gigante, um tantinho enferrujado e sujo. Nele tinha um líquido amarelo meio viscoso, com uns grãos aglomerados no fundo e umas grandes e alaranjadas rodelas pairando no meio do copo, de algo que mais parecia um embrião extraterrestre. Ao provar o conjunto da obra, detectamos: o líquido, conserva de pêssego em calda; o corpo estranho boiando, o pêssego propriamente dito; os grãos no fundo, milho. É! É isso que você está imaginando com o seu estômago! O mais impressionamente é que o Parque estava cheio de gente comendo (ou bebendo, ainda não sei exatamente o verbo de ação para isso) essa coisa estranha sem fazer cara feia. Então, tentamos não expor uma careta naquele momento, mas sou tão fraca! E com todo o meu rosto, disse um expressivo e mudo “Eca!”. Só que, mesmo assim, comemos tudo. Está certo, eu comi menos, muito menos, mas ajudei a acabar com aquilo. Agora, temos de tirar a má impressão da bebida (ou sei lá o que era) tentando um Mote con Huesillo de verdade. Quem sabe em outras férias? Até lá a coragem para aventuras gastronômicas retorna. Pelo menos esperamos que sim.


domingo, 15 de julho de 2012

AUGUSTIN

Lá estavam, todos ao redor da nuvem branca. As cores eram quase imperceptíveis, tal era a luminosidade da cena. As asas prontas para alçar voo, logo que desejassem. Quando, do meio da parede macia e branca, surge uma figura, aparentemente forte, alta, pele negra, olhos muito atentos e...

― Aqui é alcool ou gasolina?

O ronco do motor assustou todos os pombos, que beliscavam suas migalhas no meio da fumaça. Ele se aproxima, curva o corpo, põe as mãos na janela do carro, e, com sotaque que mais parecia um nordestino tentando falar espanhol, nos dirige sua ensaiada cortesia:

― Boa tarde, meu nome é Augustin, benvindo ao posto Decano, estou aqui para servi-lo, espero que tenha um ótimo dia.

Uso as vírgulas aqui por rigor gramatical, mas em favor da verdade mais verdadeira, não houve sequer separação fonética das sílabas. Toda a frase parecia uma única palavra. Resultado: “Sorry, can you repeat please?”

― Boa tarde. (segundos) Meu nome é Augustin (outros segundos). Benvindo ao posto Decano(segundos mais demorados dessa vez). Estou aqui para servi-lo(segundos não tão demorados agora). Espero que tenha um ótimo dia. (silêncio).

Augustin é do Haiti. Está em Santiago há três meses. Conseguiu um emprego de frentista no Posto de Combustível Decano e definitivamente sabia chegar numa conversa. Em cinco minutos de atendimento, soubemos de sua viagem, de sua origem, de sua idade, sua família, seus planos: limpar o vidro, checar a calibragem dos pneus e todo o resto que se oferece num posto de combustível.

Só o vimos uma única vez, esta vez, em todo o nosso tempo no Chile e agora ele está aqui, compondo esta galeria de contos de férias. Para não dizer que não falamos de coisas importantes.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

CAVALO DE TRÓIA

Consumimos tecnologia ou ela nos consome?

A compra de qualquer produto dentro de uma casa, onde o que impera é a comunicação, importante é o poder do convencimento, mesmo sabendo que tal produto pode agradar mais a um do que o outro...

― Mô, comprei umas panelas que são a nossa cara, modernas, práticas, esmaltadas e muito bonitas; cozinham nossas refeições em instantes, sem deixar queimar, enquanto fazemos outras coisas! Depois é só colocar o bife no grill e tá tudo pronto. Assim, teremos muito mais tempo um para o outro!

Temos aqui, uma “culinária de tomada”, é só plugar! Ela convenientemente convence o marido a adquirir um par dessas praticidades, claro que com a preocupação de não ser taxada de preguiçosa, pois, tratando-se de forno e fogão, a sogra é uma excelente cozinheira, e totalmente avessa a tecnologias – com muita dificultade ainda aceita microondas para fazer pipoca de saquinho.

― Claro, Vida! Quero você o mais longe possível da cozinha!

Ponto para ela. Quanto mais longe da cozinha, mais tempo no facebook. Se pudesse entraria lá só para ligar e desligar o microondas, já que tudo fica uma delícia feito nele, principalmente em se tratando de lasanha semi-pronta.

E voltando ao poder de convencimento...

― Vida! Comprei um presente para nós... Última geração, som e imagens de alta definição, tem acesso a Internet, grava e reproduz blu-ray, disco ótico e pode armazenar até 160 GB!

“O que será? Temos em nossa casa tudo de mais moderno, TV, computador, som, home theater...” Ela pensa. Ele continha:

― Lembre-se que nosso casamento foi gravado em DVD comum e em blu-ray e ainda não o vimos em blu-ray! Estou curioso para ver como que é. Não poderia perder essa oportunidade!

― Mô, estou confusa. O álbum de fotos do nosso casamento, a cada passada de dedo, você virava duas ou três fotos ao mesmo tempo, numa tentativa de encurtar sua impaciência. Acho que quando fizermos dez anos de casados, e você por um breve momento olhar nosso álbum, é bem capaz de pensar que está sem memória, pois haverá fotos inéditas para você. Quando coloquei o nosso DVD e comecei a falar dos detalhes das roupas dos convidados e fofocar sobre outras coisas, você já estava babando verde. Agora vem me falar que quer ver tudo de novo? E em blue-ray?!

― E tem dois joystics... continuou ele.

― Ah, não! Não acredito que você comprou isso! Se era para ver nosso blu-ray, que comprasse um aparelho para tal. Agora, um... um vídeo game? E ainda tem a cara-de-pau de falar que é um presente para “nós”? Para nós!? Um vídeo game? Onde é que eu entro nisso?

― Vida, não é vídeo game! É blu-ray que armazena dados, dá para ver DVD e até serve para jogar!!! Além disso, um joystick é seu e o outro é meu!

Algum tempo depois, com a chegada do “presente”, ele fez questão de assistir, ao lado da amada, por duas horas, o blu-ray do casamento. Fez comentários pertinentes e prometeu comprar alguns filmes românticos para passarem bons momentos juntos, assistindo a tudo com todos os detalhes que a nova tecnologia proporcionava. Isso a deixou muito feliz, ele parecia outro!

Realmente mais filmes foram comprados, e ele sempre pedia para ela esperar só um pouquinho, pois estava testando novos jogos. Os dois joystics? Foram usados sim, porém não por ela. Um deles apresentou defeito logo, devido ao afundamento dos botões por uso em excesso. Quanto aos filmes...

(Autoria de CBS, amigo e colaborador)

segunda-feira, 18 de junho de 2012

NA VEIA

― Foi lá que eu conheci. No Brasil. Uns amigos da faculdade me ofereceram uma pequena quantidade. Depois disso, nunca mais pude me esquecer. Fiquei viciado. Ah, o Brasil, e suas belezas inigualáveis! As praias que não conheci, as mulheres... sim, mulheres muito bonitas, se me permite dizer. É com todo o respeito! Mas aquela sensação, aquela sensação ao provar o pó dissolvido e praticamente injetado, de tão ansioso que eu ficava, em lugar nenhum do Chile eu teria isso...

Depois de uma tentativa frustrada de almoçar em nosso primeiro dia em Santiago, em um local de indicação nativa, deparamo-nos com um outro chamado Mercado Central. O prédio por fora tinha bom aspecto e o movimento intenso indicava que lá acontecia algo que muita gente compartilhava. Entramos.

Estávamos certos. Muita gente passando o domingo comendo e bebendo por ali. Era um salão enorme, de teto alto e antigo, um tanto danificado e empoeirado, cercado de restaurantes de todos os modelos, cores e tamanhos, com muita sujeira, luzes, adereços e agitação.



Percorremos a extensão do mercado pela parte interna, observando cada canto, comentando os tipos, as imagens, quando de repente alguém nos aponta gritando: “Brasileiros!”. Era mais um vendedor de maravilhas (Que ótimo!) e, exatamente como num déjà vu, ofereceu-nos a sua especialidade, mas antes, desfiou um rosário de histórias sobre suas visitas ao Brasil, de como aprecia o povo simpático e as mulheres bonitas, “Com todo respeito!”.

A conversa andou. O rapaz era verdadeiramente um conhecedor de muitas coisas. E dessas coisas, confessou-nos, uma em particular o levou a um vício desenfreado, e a uma crise de abstinência sem precedentes, quando voltou para o Chile. Sim, no Chile não tem paçoca, nem fazem ideia do que seja, talvez imaginem algo como um bastão de trigo e sal, com dendê, banana, café, cachaça e purpurina.

― Foi lá que eu conheci. Ah... mas ainda lembro. Lembro perfeitamente...

E lá se foi a descrição de como o vício o consumiu. E depois de todo o blá, blá, blá, mais uma vez, não sem medo de nos arrepender, resolvemos aceitar a sugestão do almoço e nos sentamos no pedacinho do salão que correspondia ao restaurante Jóia do Pacífico.

Não demorou muito e o prato chegou, apenas um, por recomendação, pois os pratos chilenos eram fartos, uma informação que nos foi muito útil durante toda a nossa estadia por lá. Primeiro a imagem: reineta era um peixe de carne levemente rosada, estava coberto com um molho branco e, à parte, uma salada e arroz. Não sabemos se a salada e o arroz eram tão bons quanto o chefe nos afirmou, mas o peixe... Era realmente fantástico, uma combinação perfeita de temperos, preparado com um minucioso cuidado, muita precisão no tempo de cozimento, como num restaurante daqueles em que cada item do cardápio vale um salário mínimo brasileiro, mas sem a frescura da apresentação, sem racionamento na quantidade e muito, muito barato.

Então, restaurados na fé em indicações de desconhecidos e alimentados, seguimos com nossas andanças. Mochila nas costas, várias camadas de protetor solar, mapa na mão e muita disposição para conhecermos tudo o que pudesse caber em três dias. Demora bem mais para contar, mas em algum momento, eu chego no ano novo. Esse foi o nosso Natal de 2011.
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quinta-feira, 3 de maio de 2012

O TEMPO DOS 30


― Tia, você fala muito difícil!

E eu pensava que era a pessoa mais simplificada do mundo. Não existe quem possa nos entender como nós mesmos. Isso às vezes nos faz muito solitários, agora está mais do que claro. Minha geração e a da minha sobrinha de 14 anos, mesmo tão próximas, já não se entendem direito. A gente divide o mesmo mundo, mas não a mesma rotação.

Estaríamos menos sozinhos se fôssemos mudos? Teríamos mais atenção, seríamos mais interessantes se exigíssimos um do outro mais do que audição ou visão separadamente? Mas para quê? Quanto mais O tempo passa, mais estranha se torna a humanidade para mim.

É, fiz aniversário. Cheguei na crise dos 30.
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sexta-feira, 16 de março de 2012

ENTRE DUAS DATAS

Que duas pessoas se amem e se separem é, na verdade, coisa triste, desde que não há entre elas nenhum impedimento moral ou social. Mas o destino ou o acaso, ou o complexo das circunstâncias da vida determina muita vez o contrário. Uma viagem de negócio ou de recreio, uma convalescença, qualquer coisa basta (consultem La Palisse)1 para cavar um abismo entre duas pessoas.

1La Palisse: nobre militar francês (1470-1525) cuja popularidade rendeu canções com expressões de forte evidência; sinônimo de situações extremamente óbvias.

Era isto, resumidamente, o que pensava uma noite o bacharel Duarte, à mesa de um café, tendo vindo do Teatro Ginásio. Tinha visto no teatro uma moça muito parecida com outra que ele outrora namorara. Há quanto tempo ia isso! Há sete anos, foi em 1855. Ao ver a moça no camarote, chegou a pensar que era ela, mas advertiu que não podia ser; a outra tinha dezoito anos, devia estar com vinte e cinco, e esta não representava mais de dezoito, quando muito, dezenove.

Não era ela; mas tão parecida, que trouxe à memória do bacharel todo o passado, com as suas reminiscências vivas no espírito, e Deus sabe se no coração. Enquanto lhe preparavam o chá, Duarte divertiu-se em recompor a vida, se acaso tivesse casado com a primeira namorada — a primeira! Tinha então vinte e três anos. Vira-a na casa de um amigo, no Engenho Velho, e ficaram gostando um do outro. Ela era meiga e acanhada, linda a mais não ser, às vezes com ares de criança, que lhe davam ainda maior relevo. Era filha de um coronel.

Nada impedia que os dois se casassem, uma vez que se amavam e se mereciam. Mas aqui entrou justamente o destino ou o acaso, o que ele chamava há pouco “complexo das circunstâncias da vida”, definição realmente comprida e enfadonha. O coronel teve ordem de seguir para o Sul; ia demorar-se dois a três anos. Ainda assim podia a filha casar com o bacharel; mas não era este o sonho do pai da moça, que percebera o namoro e estimava poder matá-lo. O sonho do coronel era um general; em falta dele, um comendador rico. Pode ser que o bacharel viesse a ser um dia rico, comendador e até general — como no tempo da guerra do Paraguai. Pode ser, mas não era nada, por ora, e o pai de Malvina não queria arriscar todo o dinheiro que tinha nesse bilhete que podia sair-lhe branco.

Duarte não a deixou ir sem tentar alguma coisa. Meteu empenhos. Uma prima dele, casada com um militar, pediu ao marido que interviesse, e este fez tudo o que podia para ver se o coronel consentia no casamento da filha. Não alcançou nada. Afinal, o bacharel estava disposto a ir ter com eles no Sul; mas o pai de Malvina dissuadiu-o de um tal projeto, dizendo-lhe primeiro que ela era ainda muito criança, e depois que, se ele lá aparecesse, então é que nunca lha daria.

Tudo isso foi pelos fins de 1855. Malvina seguiu com o pai, chorosa, jurando ao namorado que se atiraria ao mar, logo que saísse a barra do Rio de Janeiro. Jurou com sinceridade; mas a vida tem uma parte inferior que destrói, ou pelo menos, altera e atenua as resoluções morais. Malvina enjoou. Nesse estado, que toda a gente afirma ser intolerável, a moça não teve a necessária resolução para um ato de desespero. Chegou viva e sã ao Rio Grande.

Que houve depois? Duarte teve algumas notícias, a princípio, por parte da prima, a quem Malvina escrevia, todos os meses, cartas cheias de protestos e saudades. No fim de oito meses, Malvina adoeceu, depois escassearam as cartas. Afinal, indo ele à Europa, cessaram elas de todo. Quando ele voltou, soube que a antiga namorada tinha casado em Jaguarão; e (vede a ironia do destino) não casou com general nem comendador rico, mas justamente com um bacharel sem dinheiro.

Está claro que ele não deu um tiro na cabeça nem murros na parede; ouviu a notícia e conformou-se com ela. Tinham então passado cinco anos; era em 1860. A paixão estava acabada; havia somente um fiozinho de lembrança teimosa. Foi cuidar da vida, à espera de casar também.

E é agora, em 1862, estando ele tranqüilamente no Ginásio, que uma moça lhe apareceu com a cara, os modos e a figura de Malvina em 1855. Já não ouviu bem o resto do espetáculo; viu mal, muito mal, e, no café, encostado a uma mesa do canto, ao fundo, rememorava tudo, e perguntava a si mesmo qual não teria sido a sua vida, se tivessem realizado o casamento.

Poupo às pessoas que me lêem a narração do que ele construiu, antes, durante e depois do chá. De quando em quando, queria sacudir a imagem do espírito; ela, porém, tornava e perseguia-o, assemelhando-se (perdoem-me as moças amadas) a uma mosca importuna. Não vou buscar à mosca senão a tenacidade de presença, que é uma virtude nas recordações amorosas; fica a parte odiosa da comparação para os conversadores enfadonhos. Demais, ele próprio, o próprio Duarte é que empregou a comparação, no dia seguinte, contando o caso ao colega de escritório. Contou-lhe então todo o passado.

— Nunca mais a viste?

— Nunca.

— Sabes se ela está aqui ou no Rio Grande?

— Não sei nada. Logo depois do casamento, disse-me a prima que ela vinha para cá; mas soube depois que não, e afinal não ouvi dizer mais nada. E que tem que esteja? Isto é negócio acabado. Ou supões que seria ela mesma que vi? Afirmo-te que não.

— Não, não suponho nada; fiz a pergunta à toa.

— À toa? repetiu Duarte rindo.

— Ou de propósito, se queres. Na verdade, eu creio que tu... Digo? Creio que ainda estás embeiçado...

— Por quê?

— A turvação de ontem...

— Que turvação?

— Tu mesmo o disseste; ouviste mal o resto do espetáculo, pensaste nela depois, e agora mesmo contas-me tudo com um tal ardor...

— Deixa-te disso. Contei o que senti, e o que senti foram saudades do passado. Presentemente...

Daí a dias, estando com a prima — a intermediária antiga das notícias —, contou-lhe o caso do Ginásio.

— Você ainda se lembra disso? disse ela.

— Não me lembro, mas naquela ocasião deu-me um choque... Não imagina como era parecida. Até aquele jeitinho que Malvina dava à boca, quando ficava aborrecida, até isso...

— Em todo caso, não é a mesma.

— Por quê? Está muito diferente?

— Não sei; mas sei que Malvina ainda está no Rio Grande.

— Em Jaguarão?

— Não; depois da morte do marido...

— Enviuvou?

— Pois então? há um ano. Depois da morte do marido, mudou-se para a capital.

Duarte não pensou mais nisto. Parece mesmo que alguns dias depois encetou um namoro, que durou muitos meses. Casaria, talvez, se a moça, que já era doente, não viesse a morrer, e deixá-lo como dantes. Segunda noiva perdida.

Acabava o ano de 1863. No princípio de 1864, indo ele jantar com a prima, antes de seguir para Cantagalo, onde tinha de defender um processo, anunciou-lhe ela que um ou dois meses depois chegaria Malvina do Rio Grande. Trocaram alguns gracejos, alusões ao passado e ao futuro; e, tanto quanto se pode dizer, parece que ele saiu de lá pensando na recente viúva. Tudo por causa do encontro no Ginásio em 1862. Entretanto, seguiu para Cantagalo.

Não dois meses, nem um, mas vinte dias depois, Malvina chegou do Rio Grande. Não a conhecemos antes, mas pelo que diz a amiga ao marido, voltando de visitá-la, parece que está bonita, embora mudada. Realmente, são passados nove anos. A beleza está mais acentuada, tomou outra expressão, deixou de ser o alfenim de 1855, para ser mulher verdadeira. Os olhos é que perderam a candura de outro tempo, e um certo aveludado, que acariciava as pessoas que os recebiam. Ao mesmo tempo, havia nela, outrora, um acanhamento próprio da idade, que o tempo levou: é o que acontece a todas as pessoas. Malvina é expansiva, ri muito, mofa um pouco, e ocupa-se de que a vejam e admirem. Também outras senhoras fazem a mesma coisa em tal idade, e até depois, não sei se muito depois; não a criminemos por um pecado tão comum.

Passados alguns dias, a prima do bacharel falou deste à amiga, contou-lhe a conversa que tiveram juntos, o encontro do Ginásio, e tudo isso pareceu interessar grandemente à outra. Não foram adiante; mas a viúva tornou a falar do assunto, não uma, nem duas, mas muitas vezes.

— Querem ver que você está querendo recordar-se... Malvina fez um gesto de ombros para fingir indiferença; mas fingiu mal. Contou-lhe depois a história do casamento. Afirmou que não tivera paixão pelo marido, mas que o estimara bastante. Confessou que muita vez se lembrara do Duarte. E como estava ele? tinha ainda o mesmo bigode? ria como dantes? dizia as mesmas graças?

— As mesmas.

— Não mudou nada?

— Tem o mesmo bigode, e ri como antigamente; tem mais alguma coisa: um par de suíças2.

— Usa suíças?

— Usa, e por sinal que bonitas, grandes, castanhas...

Malvina recompôs na cabeça a figura de 1855, pondo-lhe as suíças, e achou que deviam ir-lhe bem, conquanto o bigode somente fosse mais adequado ao tipo anterior. Até aqui era brincar; mas a viúva começou a pensar nele com insistência; interrogava muito a outra, perguntava-lhe quando é que ele vinha.

— Creio que Malvina e Duarte acabam casando, disse a outra ao marido.

Duarte veio finalmente de Cantagalo. Um e outro souberam que iam aproximar-se; e a prima, que jurara aos seus deuses casá-los, tornou o encontro de ambos ainda mais apetecível. Falou muito dele à amiga; depois quando ele chegou, falou-lhe muito dela, entusiasmada. Em seguida arranjou-lhes um encontro, em terreno neutro. Convidou-os para um jantar.

2Suíças: parte da barba e cabelo que se encontram junto à orelha em alguns homens; costeletas.

Podem crer que o jantar foi esperado com ânsia por ambas as partes. Duarte, ao aproximar-se da casa da prima, sentiu mesmo uns palpites de outro tempo; mas dominou-se e subiu. Os palpites aumentaram; e o primeiro encontro de ambos foi de alvoroço e perturbação. Não disseram nada; não podiam dizer coisa nenhuma. Parece até que o bacharel tinha planeado um certo ar de desgosto e repreensão. Realmente, nenhum deles fora fiel ao outro, mas as aparências eram a favor dele, que não casara, e contra ela, que casara e enterrara o marido. Daí a frieza calculada da parte do bacharel, uma impassibilidade de fingido desdém. Malvina não afetara nem podia afetar a mesma atitude; mas estava naturalmente acanhada — ou digamos a palavra toda, que é mais curta, vexada. Vexada é o que era.

A amiga dos dois tomou a si desacanhá-los, reuni-los, preencher o enorme claro que havia entre as duas datas, e, com o marido, tratou de fazer um jantar alegre. Não foi tão alegre como devia ser; ambos espiavam-se, observavam-se, tratavam de reconhecer o passado, de compará-lo ao presente, de ajuntar a realidade às reminiscências. Eis algumas palavras trocadas à mesa entre eles:

— O Rio Grande é bonito?

— Muito: gosto muito de Porto Alegre.

— Parece que há muito frio?

— Muito.

E depois, ela:

— Tem tido bons cantores por cá?

— Temos tido.

— Há muito tempo não ouço uma ópera.

Óperas, frio, ruas, coisas de nada, indiferentes, e isso mesmo a largos intervalos. Dir-se-ia que cada um deles só possuía a sua língua, e exprimia-se numa terceira, de que mal sabiam quatro palavras. Em suma, um primeiro encontro cheio de esperanças. A dona da casa achou-os excessivamente acanhados, mas o marido corrigiu-lhe a impressão, ponderando que isso mesmo era prova de lembrança viva a despeito dos tempos.

Os encontros naturalmente amiudaram-se. A amiga de ambos entrou a favorecê-los. Eram convites para jantares, para espetáculos, passeios, saraus — eram até convites para missas. Custa dizer, mas é certo que ela até recorreu à igreja para ver se os prendia de uma vez.

Não menos certo é que não lhes falou de mais nada. A mais vulgar discrição pedia o silêncio, ou pelo menos, a alusão galhofeira e sem calor; ela preferiu não dizer nada. Em compensação observava-os, e vivia numas alternativas de esperança e desalento. Com efeito, eles pareciam andar pouco.

Durante os primeiros dias, nada mais houve entre ambos, além de observação e cautela. Duas pessoas que se vêem pela primeira vez, ou que se tornam a ver naquelas circunstâncias, naturalmente dissimulam. É o que lhes acontecia. Nem um nem outro deixava correr a natureza, pareciam andar às apalpadelas, cheios de circunspecção e atentos ao menor escorregão. Do passado, coisa nenhuma. Viviam como se tivessem nascido uma semana antes, e devessem morrer na seguinte; nem passado nem futuro. Malvina sofreou a expansão que os anos lhe trouxeram, Duarte o tom de homem solteiro e alegre, com preocupações políticas, e uma ponta de ceticismo e de gastronomia. Cada um punha a máscara, desde que tinham de encontrar-se.

Mas isto mesmo não podia durar muito; no fim de cinco ou seis semanas, as máscaras foram caindo. Uma noite, achando-se no teatro, Duarte viu-a no camarote, e, não pôde esquivar-se de a comparar com a que vira antes, e tanto se parecia com a Malvina de 1855. Era outra coisa, assim de longe, e às luzes, sobressaindo no fundo escuro do camarote. Além disso, pareceu-lhe que ela voltava a cabeça para todos os lados com muita preocupação do efeito que estivesse causando.

“Quem sabe se deu em namoradeira?” pensou ele.

E, para sacudir este pensamento, olhou para outro lado; pegou do binóculo e percorreu alguns camarotes. Um deles tinha uma dama, assaz galante, que ele namorara um ano antes, pessoa que era livre, e a quem ele proclamara a mais bela das cariocas. Não deixou de a ver, sem algum prazer; o binóculo demorou-se ali, e tornou ali, uma, duas, três, muitas vezes. Ela, pela sua parte, viu a insistência e não se zangou. Malvina, que notou isso de longe, não se sentiu despeitada; achou natural que ele, perdidas as esperanças, tivesse outros amores.

Um e outro eram sinceros aproximando-se. Um e outro reconstruíam o sonho anterior para repeti-lo. E por mais que as reminiscências posteriores viessem salteá-lo, ele pensava nela; e por mais que a imagem do marido surgisse do passado e do túmulo, ela pensava no outro. Eram como duas pessoas que se olham, separadas por um abismo, e estendem os braços para se apertarem.

O melhor e mais pronto era que ele a visitasse; foi o que começou a fazer — dali a pouco. Malvina reunia todas as semanas as pessoas de amizade. Duarte foi dos primeiros convidados, e não faltou nunca. As noites eram agradáveis, animadas, posto que ela devesse repartir-se com os outros. Duarte notava-lhe o que já ficou dito: gostava de ser admirada; mas desculpou-a dizendo que era um desejo natural às mulheres bonitas. Verdade é que, na terceira noite, pareceu-lhe que o desejo era excessivo, e chegava ao ponto de a distrair totalmente. Malvina falava para ter o pretexto de olhar, voltava a cabeça, quando ouvia alguém, para circular os olhos pelos rapazes e homens feitos, que aqui e ali a namoravam. Esta impressão foi confirmada na quarta noite e na quinta, desconsolou-o bastante.

— Que tolice! disse-lhe a prima, quando ele lhe falou nisso, afetando indiferença. Malvina olha para mostrar que não desdenha os seus convidados.

— Vejo que fiz mal em falar a você, redargüiu ele rindo.

— Por quê?

— Todos os diabos, naturalmente, defendem-se, continuou Duarte; todas vocês gostam de ser olhadas; — e, quando não gostam, defendem-se sempre.

— Então, se é um querer geral, não há onde escolher, e nesse caso...

Duarte achou a resposta feliz, e falou de outra coisa. Mas, na outra noite, não achou somente que a viúva tinha esse vício em grande escala; achou mais. A alegria e expansão das maneiras trazia uma gota amarga de maledicência. Malvina mordia, pelo gosto de morder, sem ódio nem interesse. Começando a freqüentá-la, nos outros dias, achou-lhe um riso mal composto, e, principalmente, uma grande dose de ceticismo. A zombaria nos lábios dela orçava pela troça elegante.

“Nem parece a mesma” disse ele consigo.

Outra coisa que ele lhe notou — e não lhe notaria se não fossem as descobertas anteriores — foi o tom cansado dos olhos, o que acentuava mais o tom velhaco do olhar. Não a queria inocente, como em 1855; mas parecia-lhe que era mais que sabida, e essa nova descoberta trouxe ao espírito dele uma feição de aventura, não de obra conjugal. Daí em diante, tudo era achar defeitos; tudo era reparo, lacuna, excesso, mudança.

E, contudo, é certo que ela trabalhava em reatar sinceramente o vínculo partido. Tinha-o confiado à amiga, perguntando-lhe esta por que não casava outra vez.

— Para mim há muitos noivos possíveis, respondeu Malvina; mas só chegarei a aceitar um.

— É meu conhecido? perguntou a outra sorrindo.

Malvina levantou os ombros, como dizendo que não sabia; mas os olhos não acompanhavam os ombros, e a outra leu neles o que já desconfiava.

— Seja quem for, disse-lhe, o que é que lhe impede de casar?

— Nada.

— Então...

Malvina esteve calada alguns instantes; depois confessou que a pessoa lhe parecia mudada ou esquecida.

— Esquecida, não, acudiu vivamente a outra.

— Pois só mudada; mas está mudada.

— Mudada...

Na verdade, também ela achava transformação no antigo namorado. Não era o mesmo, nem fisicamente nem moralmente. A tez era agora mais áspera; e o bigode da primeira hora estava trocado por umas barbas sem graça; é o que ela dizia, e não era exato. Não é porque Malvina tivesse na alma uma corda poética ou romântica; ao contrário, as cordas eram comuns. Mas tratava-se de um tipo que lhe ficara na cabeça, e na vida dos primeiros anos. Desde que não respondia às feições exatas do primeiro, era outro homem. Moralmente, achava-o frio, sem arrojo, nem entusiasmo, muito amigo da política, desdenhoso e um pouco aborrecido. Não disse nada disto à amiga; mas era a verdade das suas impressões. Tinham-lhe trocado o primeiro amor.

Ainda assim, não desistiu de ir para ele, nem ele para ela; um buscava no outro o esqueleto, ao menos, do primeiro tipo. Não acharam nada. Nem ele era ele, nem ela era ela. Separados, criavam forças, porque recordavam o quadro anterior, e recompunham a figura esvaída; mas tão depressa tornavam a unir-se como reconheciam que o original não se parecia com o retrato — tinham-lhes mudado as pessoas.

E assim foram passando as semanas e os meses. A mesma frieza do desencanto tendia a acentuar as lacunas que um apontava ao outro, e pouco a pouco, cheios de melhor vontade, foram-se separando. Não durou este segundo namoro, ou como melhor nome tenha, mais de dez meses. No fim deles, estavam ambos despersuadidos de reatar o que fora roto. Não se refazem os homens — e, nesta palavra, estão compreendidas as mulheres; nem eles nem elas se devolvem ao que foram... Dir-se-á que a terra volta a ser o que era, quando torna a estação melhor; a terra, sim, mas as plantas, não. Cada uma delas é um Duarte ou uma Malvina.

Ao cabo daquele tempo esfriaram; seis ou oito meses depois, casaram-se — ela, com um homem que não era mais bonito, nem mais entusiasta, que o Duarte — ele com outra viúva, que tinha os mesmos característicos da primeira. Parece que não ganharam nada; mas ganharam não casar uma desilusão com outra: eis tudo, e não é pouco.

(Machado de Assis, A Estação, 1884)

sexta-feira, 2 de março de 2012

SUGESTÃO DO CHEFE

Acordamos. Nosso primeiro dia em Santiago. Saímos à rua com cara de turista perdido. Procurávamos algo para comer, pois era quase meio dia e não havia nada em nossos estômagos desde que embarcamos no último voo. Um longo caminho...

Parados numa esquina, mapa nas mãos, olhar por cima dos carros em busca de letreiros que anunciassem um restaurante. Um senhor passar por nós e, a poucos passos, se volta:

― ¿Yo puedo ayudarlo?

― Buscamos un lugar para comer.

O chileno aponta para uma construção à frente, atravessando duas largas avenidas e passando por uma ponte. Disse que lá era bom e barato, que no barzinho atrás de nós era caro, numa proporção de preço que conferia a um cliente aqui o valor que se serviam 100 clientes lá. Ora, era a indicação de um habitante! Fomos conhecer.

Era um mercado de frutas chamado La Vega, mas quase tudo estava fechado por ser domingo, somente no segundo piso, que era o local onde se concentrava a “praça de alimentação”, tinha movimento. Subimos uma escada suja, o ambiente cheirava a algo indescritível, pessoas despreocupadas passeavam por entre aquelas paredes, sentavam-se em banquinhos gastos, conversavam como se estivessem em um parque verde e agradável.

Em uma das laterais do prédio, aglomeravam-se umas barraquinhas de comida. Não tenho palavras para descrever a aparência daquilo, mas pode ter certeza que era feio, muito feio. Aproximamo-nos e uma criatura imensa, de avental que outrora fora branco até os tornozelos, imundo de gordura e manchas de sei lá o quê por todos os cantos, aborda-nos com a lábia de um vendedor de maravilhas e nos convence a experimentar um prato que seria sua especialidade, um Ceviche.

Sentamos e esperamos, tomando cuidado para não tocar em nada, cadeira, mesa, toalha, nada, pois em tudo tinha uma crosta de banha lamacenta. O prato chegou, foi empurrado a nossa frente por uma garçonete mal humorada. Não era bem um prato, era uma tigela funda, com uma água amarela na qual boiavam uns pedaços de bichos do mar, fatias de cebola roxa e folhas picadas. O cheiro que saía dali completava o retrato apavorante. Olhamos um para o outro, tocamos de leve com uma colher a água na tigela, olhamo-nos mais uma vez e, sem palavra, levantamo-nos juntos, largamos o dinheiro na mão do vendedor de maravilhas, que não ensaiou nenhuma questão, e saímos em passos marcados, rindo, saboreando nossa expectativa para essa viagem. Isso era só o começo.
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terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

ENTREVISTA

A fila se forma de maneira rápida e se dissipa com a mesma velocidade do lado de fora. Os agentes, altamente treinados, organizam com vontade toda aquela multidão e a empurra para dentro do edifício. Celulares, aparelhos eletrônicos de qualquer tipo, objetos cortantes, pontiagudos, armas de fogo, terroristas portáteis, tudo fica do lado de fora. Lá dentro, muita gente para organizar e mais ainda para ser organizada. Fila, muita fila: para passar no detector de metais, para chegar ao primeiro balcão, deixar o passaporte, depois pegar a senha, depois para esperar. Um amontoado de gente que teve de agendar o atendimento exatamente no mesmo horário (isso ainda não entrou numa era moderna mais inteligente, paciência!); um atrás do outro ainda para marcar as digitais e, enfim, a fila de espera para a entrevista.

Os momentos em formação militar são os mais lembrados. Observa-se tudo: o comportamento dos funcionários de crachá e rádio na mão; os cinturões que marcam as curvas e organizam o povo cada um no seu quadrado; as expressões das pessoas, que descrevem tédio, ansiedade, cansaço... Quase que se ouve de alguns os pensamentos (muitos inapropriados para se dizer aqui), mas que, certamente, são capitados por todos os presentes na sala, inclusive os entrevistadores.

Particularmente o meu pensamento foi: não seja aquele ali, com cara de caixinha de areia usada, que vai me entrevistar, não seja aquele ali, não seja... “Senhora, cabine três, por favor.”

...

(Este trecho da narrativa foi cortado por requisição da censura pessoal e profissional do autor. Para reproduzir o conteúdo não divulgado, basta arremessar a substância da tal caixinha em alguém e aguardar.)

Que fazer? Posso fingir que não pensei nada a respeito, mas ele intuitivamente já tinha assimilado tudo e não estava escondendo o descontentamento.

― Bõm djia. Passaporrtchi porr favorr. – disse sem tirar os olhos da tela do computador.

Que dificuldade! Serei entrevistada de pé, por uma pessoa sentada a minha frente, usando um aparelho reprodutor de voz robótica, com sotaque de norte-americano falando espanhol do interior de São Paulo, através de um vidro furado na altura do meu umbigo. Tudo o que eu precisava para me sentir confortável, em pleno estado de tranquilidade.

― Quãntos djiasvai ficarrem Estados Unidos?

― Não entendi. Pode repetir?

Veio aquela cara de caixinha de novo, só que dessa vez os olhos foram para o teto, numa expressão mais acentuada de que eu, definitivamente, estava aborrecendo o seu cérebro.

― Tênm fillhos?

― Não.

― É cassada?

― Não.

― Quêm vai pagarr suas despessas?

Entrego-lhe uma carta que explica quem pagará minhas despesas. A carta está em inglês. Foi o suficiente para o homem se descontrolar. Não entende porque eu não estou na fila para os falantes da língua inglesa, e fica mais furioso quando explico que eu não falo inglês. Muito difícil de perceber que outra pessoa redigiu a carta, e a pessoa é norte-americana.

Agora, nós dois com cara de caixinha. Ele conseguiu me irritar. Mandei tudo para os quintos e comecei a corresponder no mesmo tom de desprezo:

― Falla Engllês?

― Deveria?

― Do you speech English? What are you thinking? (E mais um monte de frases desse tipo, que, pelo o que pude entender, estava me recriminando seriamente por não responder suas perguntas diretamente).

― Again: vôcê falla Engllês?

― Já disse que não!

Observa-me por uns instantes, sem erguer a cabeça, numa expressão de poucos amigos.

― Bôa viagenn. Nassaída pagarr ennvio do correiyo.

― Passar bem.

E fui embora sem olhar para trás. Não tive notícias de uma entrevista para conseguir o visto americano mais estranha. E achei sinceramente que me recusariam. Mas agora estou aqui, em New Jersey, contando toda essa história, bebendo chocolate quente e vendo neve pela janela.

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quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

MEU IDEAL É ESCREVER...

Meu ideal seria escrever uma história tão engraçada que aquela moça que está doente naquela casa cinzenta quando lesse minha história no jornal risse, risse tanto que chegasse a chorar e dissesse – “ai meu Deus, que história mais engraçada!”. E então a contasse para a cozinheira e telefonasse para duas ou três amigas para contar a história; e todos a quem ela contasse rissem muito e ficassem alegremente espantados de vê-la tão alegre. Ah, que minha história fosse como um raio de sol, irresistivelmente louro, quente, vivo, em sua vida de moça reclusa, enlutada, doente. Que ela mesma ficasse admirada ouvindo o próprio riso, e depois repetisse para si – “mas essa história é mesmo muito engraçada!”.

Que um casal que estivesse em casa mal-humorado, o marido bastante aborrecido com a mulher, a mulher bastante irritada com o marido, que esse casal também fosse atingido pela minha história. O marido a leria e começaria a rir, o que aumentaria a irritação da mulher. Mas depois que esta, apesar de sua má vontade, tomasse conhecimento da história, ela também risse muito, e ficassem os dois rindo sem poder olhar um para o outro sem rir mais; e que um, ouvindo aquele riso do outro, se lembrasse do alegre tempo de namoro, e reencontrassem os dois a alegria perdida de estarem juntos.

Que nas cadeias, nos hospitais, em todas as salas de espera a minha história chegasse – e tão fascinante de graça, tão irresistível, tão colorida e tão pura que todos limpassem seu coração com lágrimas de alegria; que o comissário do distrito, depois de ler minha história, mandasse soltar aqueles bêbados e também aquelas pobres mulheres colhidas na calçada e lhes dissesse – “por favor, se comportem, que diabo! Eu não gosto de prender ninguém!”. E que assim todos tratassem melhor seus empregados, seus dependentes e seus semelhantes em alegre e espontânea homenagem à minha história.

E que ela aos poucos se espalhasse pelo mundo e fosse contada de mil maneiras, e fosse atribuída a um persa, na Nigéria, a um australiano, em Dublin, a um japonês em Chicago – mas que em todas as línguas ela guardasse a sua frescura, a sua pureza, o seu encanto surpreendente; e que no fundo de uma aldeia da China, um chinês muito pobre, muito sábio e muito velho dissesse: “Nunca ouvi uma história assim tão engraçada e tão boa em toda a minha vida; valeu a pena ter vivido até hoje para ouvi-la; essa história não pode ter sido inventada por nenhum homem, foi com certeza algum anjo tagarela que a contou aos ouvidos de um santo que dormia, e que ele pensou que já estivesse morto; sim, deve ser uma história do céu que se filtrou por acaso até nosso conhecimento; é divina.”

E quando todos me perguntassem – “mas de onde é que você tirou essa história?” – eu responderia que ela não é minha, que eu a ouvi por acaso na rua, de um desconhecido que a contava a outro desconhecido, e que por sinal começara a contar assim: “Ontem ouvi um sujeito contar uma história...”

E eu esconderia completamente a humilde verdade: que eu inventei toda a minha história em um só segundo, quando pensei na tristeza daquela moça que está doente, que sempre está doente e sempre está de luto e sozinha naquela pequena casa cinzenta de meu bairro.

(Rubem Braga, As Cem Melhores Crônicas Brasileiras)

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

ÚLTIMA CHAMADA

Acho que todo mundo já passou por uma situação desse tipo, pelo menos uma vez na vida. Se não passou, vai passar.

Estou falando daquela impressão que nos assalta o mundo perfeito diante do nosso nariz, quando, de repente, nos damos conta de que o que estamos ouvindo não é o que estamos ouvindo. Exatamente isso. Estão falando com a gente, chega um som aos nossos ouvidos, partindo de algum ponto a nossa volta, mas o que está sendo dito não é o que está sendo informado. Ah, os campos ocultos da nossa mente!

No meu caso, demorou um tempo para perceber. Precisei me dominar primeiro, conformar-me com pelo menos mais uma viagem de avião, inevitável, para, então, alcançar a mensagem obscuramente oculta por trás de todos aqueles informativos, que fatidicamente devem ocorrer em todos os voos, sejam para perto ou para longe.

E, se você ainda não se apercebeu da questão, o que é normal, já que estou contando isso com a linearidade de um bêbado em areia movediça, vou levá-lo ao ponto da conversa em que meu cérebro, já esperto, enfim compreendeu os tais comunicados:

― “Senhores passageiros, bem-vindos ao voo 456, com destino a Brasília.” É o que eu ouvi, mas não é o que estão dizendo. Certeza. O que querem mesmo que a gente entenda é o seguinte: Se você não é desse voo e não está indo para esse lugar, caia fora agora mesmo. É sua última chance, não vamos avisar de novo.

Duvida?

― “Eu sou o capitão Fulano, estou no comando dessa aeronave, juntamente com o primeiro oficial Sicrano.” Ah, mas a intenção mesmo é: Sacou quem manda no pedaço?

― “Você já sabe, mas não custa lembrar: é proibido fumar dentro da aeronave. Pedimos que, por favor, desliguem todos os aparelhos eletrônicos. Em instantes demonstraremos os procedimentos de emergência.” Então está dito: É, você sabe, mas é brasileiro, então a gente reforça: não é pra fumar, nem tenta falar ao telefone. Lembra quem está no comando aqui?

Depois dessa revelação súbita, fiquei na dúvida do que pensar a respeito disso aí que estão fazendo na minha frente agora... Esse povo todo, que voa para um lado e para outro e não chega a lugar nenhum, alegando que é profissão, passou a ser alvo de minha mais sincera desconfiança. Mais um bom motivo para não andar, nunca mais na vida, de avião, não acham? Quê? Pretexto? Medo de voar? É nada! Eu disse isso?
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segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

ÉPOCA GENIAL

Em uma ocasião de total despreocupação, sentei-me ao lado do meu professor de filosofia na faculdade, durante o intervalo do seminário semestral de Literatura e Cultura, proporcionado pela instituição de ensino que frequentei há uns anos.

Ele, até então, era um senhor de moderados gestos, fala calma, tom sincero e sábio. Tudo nele combinava com um filósofo, pelo menos com um que eu idealizava. Ouvi-lo, mesmo contando o caso mais banal, era sempre um aprendizado, um mestre nato, seja em cerimônias oficiais ou em lanchonetes de beira de estrada.

Estávamos lá, olhando o movimento das pessoas e falando sobre programas de televisão em nossos dias. Muitas opiniões comuns, discursos surrados que ouvimos sobre exposição da violência, da imoralidade, da futilidade... essas coisas que estão aí na tela, é só ligar o aparelho e colocar em qualquer canal.

O assunto evoluiu até chegarmos às personalidades inteligentes. Durante a conversa, concluí para meu professor que eu tinha uma pontinha de tristeza por ter nascido numa época em que não mais existam grandes gênios como antigamente, ninguém mais visto, considerado, seguido, imitado, como um exemplo intelectualmente admirável. Essas pessoas, quando raramente aparecem, logo se apagam. Se não são celebridades, se não provocam escândalos, se não são protagonistas de nenhum evento de horror, acabam recolhidas a um mundo imaginário e quase inacessível para a maioria das pessoas que formam a “tal massa de opinião” de nossa espécie.

Ao expor esse meu pensamento, qual não foi minha surpresa ao ouvir do professor um monocórdio consentimento. Sinceramente, acreditei que seu comentário seria a constatação de que, na prática, o que deixaram mesmo de existir não foram os gênios e sim os seus apreciadores, o que definitivamente não é uma ideia mais otimista, hoje posso perceber. Mas, mesmo assim, queria uma confirmação de que nossa era está povoada, poluída, infestada de grandes homens e mulheres, com mentes brilhantes, capazes de fazer coisas impressionantes, melhorando ou piorando nossa existência; e que, em verdade, a extinção tivesse arrastado aqueles que reconhecem, que aplaudem, que oferecem oportunidades, aqueles que poderiam emitir o sopro de vida aos múltiplos de Einstein, John Nash, Galileu e por aí vai.

Quanta ingenuidade a minha! Como se um aspecto ou outro pudesse afetar diretamente o giro do nosso mundo. Porém, a falta de algum argumento que me induzisse a consolidar uma esperança infantil como aquela, fez-me cair num pensamento profundo, que ficou vagando pelo nada, em um silêncio que ainda dura, misturando a minha rala fé na humanidade com a certeza de que dias melhores virão.
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sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

KRAMP

Narro o fato como se fosse um filme rodando ao contrário. Naquele instante, corpo imóvel, cobertor a proteger quase tudo, apenas a cabeça de fora, parecia mais uma tartaruga, uma espécie de casulo, silêncio quebrado apenas por suspiros ofegantes, um pequeno filete desce pelo canto da boca, talvez pelo fato de ter dificuldades em respirar, os olhos apresentam algumas sequelas e estão revirados, como se estivesse entorpecido por alguma droga. Essa inércia deveria ser interrompida. Nesse caso, o uso de um desfibrilador fosse a solução. A primeira carga contrairia apenas uma das pernas, porém as outras cargas dariam mais resultados. Encolhe o corpo e começa a se debater, contorcendo-se todo, luta desesperadamente contra um forte choque vindo da parte inferior do corpo. Não sabe o que acontece. Ainda tonto consegue abrir os olhos, tudo escuro, algo está puxando. Será que é um sonho? Sente dor. Meu Deus! O que é isso? Engatinhando, tenta ficar de pé e perde o equilíbrio, apenas uma perna está boa, a outra está totalmente torta, sendo repuxada. Em uma espécie de dança desajeitada, arremessa-se para frente e encontra algo bem maior, desfere socos e tapas, acompanhados de alguns palavrões. Em vão. Este não sai do lugar. Quando tenta recuperar o equilíbrio, tomba para o lado. Nesse exato momento, recebe um golpe abaixo da linha de cintura, mais xingamentos, porém sem revides, fazendo com que o corpo consiga voltar para o local de início. O lutador suspeita de que não se pode enfrentar o oponente de pé, fica deitado e procura uma forma de conseguir se livrar do que está entortando uma das pernas, esticando-se ao máximo possível, como se evitasse ser finalizado, hora de respirar e pensar. Por que isso? E naquele momento? Passando as mãos em movimentos frenéticos sobre a perna obtêm bons resultados depois de quase meia hora. Estava aliviado, o incômodo parecia ter ido embora. Olhando fixamente em volta, levanta e acende a luz. De fato, não era um sonho. A sua frente, o armário com o qual bateu em cheio; do lado esquerdo, vê quem lhe desferiu o “golpe baixo”, a mesinha de computador. Agora, sentado em seu colchão, lembra que já tinha ouvido falar que jogadores de futebol passam frequentemente por tal dor, mas devia-se ao fato do atleta ter empreendido muito esforço físico, o que não era o seu caso. Estava com receio de voltar a dormir, pois câimbra na panturrilha às duas da manhã pode voltar a qualquer momento, é só relaxar, relaxar e relaxzzz... Então, naquele instante, corpo imóvel, cobertor a proteger quase tudo, apenas a cabeça de fora, parecia mais uma tartaruga...

(Autoria de CBS, amigo e colaborador)

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

TEMPESTADE OU COPO D'ÁGUA?


2012: o cinema já deu versão, os cientistas continuam as pesquisas, a população se divide entre arrumar as malas e arranjar mais dívidas... É o fim do mundo, segundo algumas certezas antigas e os acontecimentos naturais confirmam (ondas solares, terremotos, erupções vulcânicas, nova edição do BBB); são as profecias... As religiões se preparam para o salvamento e para agradecerem o milagre no dia seguinte; nenhum pânico em massa substancialmente organizado, mas algumas massas entram em um pânico secreto. Vamos vender todos os nossos bens (dinheiro pode ser necessário), restabelecer velhos laços de amizade e familiares, perdoar, pedir perdão, comer tudo o que sempre se quis, adiantar as férias (melhor ainda, pedir demissão), ou, simplesmente se postar de frente à paisagem favorita e pensar seriamente naquela pergunta sem resposta, com a qual sofremos desde os tempos mais remotos, tal qual uma pedrinha no sapato que, por muitas vezes, causa-nos sérias irritações, e que, de forma alguma, conseguimos removê-la: “por que será que pijama tem bolso?”

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segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

ÁGUA MINERAL

Valtão chegou na roda com notícia de que tinha largado todos os vícios. Como o Valtão tinha mesmo todos os vícios, foi recebido com incredibilidade barulhenta. Vaias, risadas, “Tá bom” e “Conta outra, Valtão”. Mas Valtão estava sério. Para dramatizar sua nova disposição, pediu ao garçom:

― Alberico: uma mineral.

Alberico hesitou. Servia a turma há dez, doze anos e nunca ouvira um pedido igual. Talvez tivesse ouvido errado.

― Uma quê?

― Uma mineral. Água mineral. Mi-ne-ral.

Alberico de boca aberta. Na falta de precedentes, precisava de mais detalhes.

― Com ou sem gás?

Valtão não respondeu em seguida. Ficou olhando para Alberico, como se a resposta estivesse em algum lugar do seu rosto. Estava decidido a largar todos os vícios, começando pela bebida. Era um homem novo. Um homem que tomava mineral. Mas com ou sem gás?

― Sem – disse Valtão.

Houve um murmúrio na mesa. O próprio Valtão se assustou com o que tinha dito. Água mineral sem gás era água pura. Ele queria água pura? Queria. Tinha que ser assim. Um corte limpo. De todas as bebidas para a água pura. Estava certo.

Como o Alberico continuasse na sua frente, em estado de choque, Valtão repetiu:

― Sem.

Mas quando o Alberico se virou para ir buscar a água, Valtão fraquejou. Talvez fosse melhor... Chamou o Alberico de volta.

― Olha aí: traz com gás. E para os outros, racionalizou:

― Nessas coisas é melhor ir por etapas.

O alívio na mesa foi evidente. Ninguém ali estava preparado para radicalismos. Não assim, não num fim de tarde de domingo. A água pura seria uma intrusa na mesa. Um constrangimento. A virtude com gás era manejável. Era recorrível.

Com bolinha ainda tinha papo.

(Luis Fernando Verissimo, em A Mesa Voadora.)

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

“SER EDUCADO PODE CAUSAR LONGAS ESPERAS, DESCASO E COCEIRA LOCAL.”

Você é do tipo que acha a época de seus avós mais completa em determinados casos? É bem comum ouvirmos por aí que antigamente isso ou aquilo era diferente, que já tivemos períodos melhores em relação ao comportamento em sociedade e que, hoje em dia, todos os caminhos levam à desumanização de nossa espécie.

Pode ser. Não costumo discordar do que não experimentei, portanto não questionarei aqui se a educação era mais bem praticada e melhor recebida antes de eu nascer. Para falar a verdade, não me agrada muito a ideia de que depois que eu nasci algo ficou ruim. Não é uma ligação que ajuda muito na auto-estima, menos ainda na disposição em se envolver amigavelmente com os outros tripulantes dessa nossa era mal feita.

Repare só o desânimo de se passar a vida aprendendo e aprimorando um conceito como “educação para ser uma boa pessoa” e descobrir, aos vinte e tantos anos, que isso não serve, absolutamente, para obtermos da maioria das pessoas à nossa volta um mínimo de boa vontade e lisura.

Avaliando um caso recente de complicações ao exercer cortesia e atenção ao próximo, apresentamos a seguinte situação real:

Um senhor idoso, simpático na distribuição dos traços do rosto, cabelos brancos, olhar terno, o típico velhinho de histórias infantis. Lá está ele, logo ali, na fila do mercado, no seu corredor preferencial que diminui, teoricamente, o desperdício de suas horas. Vê-se que já está lá há algum tempo, pois a mocinha do caixa teve um pequeno imprevisto com o cliente que estava atendendo, quando foi registrar o pagamento das compras e o sistema rejeitou o cartão, coisas que acontecem.

O nosso distinto personagem de rugas acentuadas, finalmente recebeu o “boa tarde” simpático da mocinha do caixa. Era sua vez de ser atendido e aquela funcionária lenta estava sorrindo e falando com ele, em vez de registrar suas compras. Por quê? Não tinha motivos para ter uma boa tarde, e parte disso era culpa dela. “Mocinha, você deveria ser menos oferecida e displicente e se concentrar em ser mais rápida. Isso aqui é um caixa que existe justamente para poupar o nosso tempo e não para você distribuir gracinhas. Dá para acabar logo com isso, que eu tenho mais o que fazer?”

Pois é. A moça se sentiu humilhada e teve seu bocado devolutivo de atuação social, partindo de alguém que, supostamente, viveu na época áurea da relação afetuosa entre as pessoas. As consequências, todo mundo sabe: a primeira peça do dominó cai, espalhando a má vontade em torno; com isso, o próximo da fila será mal atendido pelo ressentimento, quando não, ignorado em alguma necessidade simples, e sairá confuso, indignado com o comportamento dos jovens, sem entender por que as pessoas não mais interagem com educação e respeito, como era na sua época. “Ah, sim... aqueles é que foram bons tempos...”

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