segunda-feira, 25 de julho de 2011

SAI DA FRENTE

Você consegue imaginar que alguém seja atropelado por veículo automotor enquanto atravessa uma passarela, em um dos lugares mais populares do Brasil? Se você é brasileiro, é claro que consegue. No Rio de Janeiro, cidade maravilhosa, onde as tampas dos bueiros alcançam 15 metros, num voo vergonhoso de negligência das autoridades, isso é mais que possível, quase que completamente certo.

Outro dia, estava lá um cidadão, com sua pasta de negócios, subindo a rampa de uma das passarelas da Avenida Brasil, para chegar, em segurança, ao seu local de trabalho, que fica do outro lado desse córrego urbano, de leito revolto e poluído. Tinha a cabeça cheia, calculava as mil tarefas do dia para que todas coubessem em oito horas de expediente. Andava apressadamente para não se atrasar, consultando o relógio, prestando atenção ao movimento dos carros, quando de repente...

―Sai da frente!!!

E uma buzina estridente grita junto com a voz do motoqueiro, sem capacete, que vem no sentido oposto, numa velocidade que não se pode chamar de cautelosa. Aliás, pensemos juntos: uma moto, num espaço destinado só para pedestres, a alguns metros de altura, com máquinas assassinas passando lá embaixo... O que poderíamos chamar de velocidade cautelosa numa situação dessas? Mas voltemos ao ocorrido.

O pobre do cidadão quase se joga passarela abaixo nesse momento. Ficou agarrado na grade como um carrapicho, descorado de susto. O treco barulhento passou, sumiu em um segundo, ou dois, nem deu para contar ― as faculdades mentais estavam ocupadíssimas, concentradas na sobrevivência. Meio tonto, solta-se aos poucos das barras de ferro que marcam o lado em que se morre atropelado por uma moto, do lado em que se morre atropelado por qualquer coisa que esteja passando na hora, isso se não morrer da queda. Aos poucos, redescobre como se caminha, um pé, depois o outro, procura a pasta que deixou cair, os pés... Já consegue andar novamente. Apanha a pasta num canto da grade, abatida, toda imprestável.

Desconcertado, revoltado, retoma o passo do atraso. Pela cabeça, não mais o assunto de antes. O que pensava mesmo antes de quase virar estatística? Sim! Não! Esqueceu completamente. Nesse momento, avaliava a possibilidade de voltar para casa e desistir de cumprir aquele dia na sua série de responsabilidades. Mas agora estava no fim da passarela. Desistir significava ter de voltar pelo tal trecho destinado aos pedestres, para que estes não se arriscassem correndo entre os carros na avenida, driblando, como num vídeo game, o perigo iminente. Para quê? Melhor continuar o rumo do trabalho. Sim! Está se lembrando... Tarefas, muitas tarefas, em expediente de oitos horas.

O motoqueiro já vai longe. Resmungando, enchendo-se de razão, reclamando do paspalho que estava lá, no meio do caminho, quando ele, um homem de bem, sem crime nenhum para contar, dirigia-se ao outro lado da Avenida Brasil para resolver um assunto urgente, urgentíssimo: “Essa gente, só porque anda de pastinha na mão e gravata, se acha dona do pedaço. Esse Brasil tá uma zona mesmo.”

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