segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

DIÁLOGO DA RELATIVA GRANDEZA

(...)

Doril não disse mais nada, qualquer coisa que ele dissesse ela aproveitaria para outra acusação. Era difícil tapar a boca de Diana, ô menina renitente. Ele preferiu continuar olhando o louva-a-deus. Soprou-o de leve, ele encolheu-se e vergo o corpo para o lado do sopro, como faz uma pessoa na ventania. O louva-a-deus estava no meio de uma tempestade de vento, dessas que derrubam árvores e arrancam telhados e podem até levantar uma pessoa do chão. Doril era a força que mandava a tempestade e que podia pará-la quando quisesse. Então ele era Deus? Será que as nossas tempestades também são brincadeiras? Será que quem manda elas olha para nós como Doril estava olhando para o louva-a-deus? Será que somos pequenos para ele como um gafanhoto é pequeno para nós, ou menores ainda? De que tamanho, comparando – do de formiga? De piolho de galinha? Qual será o nosso tamanho mesmo, verdadeiro?

Doril pensou, comparando as coisas em volta. Seria engraçado se as pessoas fossem criaturinhas miudinhas, vivendo num mundo miudinho, alumiados por um sol do tamanho de uma rodela de confete...

Diana lambendo os dedos e enxugando no vestido. Qual seria o tamanho certo dela? Um palmo de cabeça, um palmo de peito, palmo e meio de barriga, palmo e meio até o joelho, palmo e meio até o pé... uns seis palmos e meio. Palmo de quem? Gafanhoto pode ter seis palmos e meio também – mas de gafanhoto. Formiga pode ter seis palmos e meio – de formiga. E os bichinhos que existem mas a gente não vê, de tão pequenos? Se tem bichos que a gente não vê, não pode ter bichos que esses que a gente não vê não veem? Onde é que o tamanho dos bichos começa e onde acaba? Qual é o maior, e qual o menor? Bonito se nós também somos invisíveis para outros bichos muito grandes, tão grandes que os nossos olhos não abarcam? E se a Terra é um bicho grandegrandegrandegrande e nós somos pulgas dele? Mas não pode! Como é que vamos ser invisíveis, se qualquer pessoa tem mais de um metro de tamanho?

Doril olhou o muro, os cafezeiros, as bananeiras, tudo bem maior do que ele, uma bananeira deve ter mais de dois metros...

Aí ele notou que o louva-a-deus não estava mais na mão. Procurou por perto e achou-o pousado num pau de lenha, numa ponta coberta de musgo. Doril levantou o pau devagarinho, olhou-o de perto e achou que a camada de musgo lembrava um matinho fechado, com certeza cheio de...

― Quando é que você vai deixar esse bichinho sossegado? Tamanho homem!

Doril largou o pau devagarinho no monte, limpou as mãos na roupa.

― Você não sabe qual é o meu tamanho.

Ela olhou-o desconfiada, com medo de dizer uma coisa e cair em alguma armadilha, Doril estava sempre arranjando novidades para atrapalhá-la.

― Você nem sabe qual é o seu tamanho – insistiu ele.

― Então não sei? Já medi e marquei com um carvão atrás da porta da sala. Pode olhar lá, se quiser.

Ele sorriu da esperada ingenuidade.

― Isso não quer dizer nada. Você não sabe o tamanho da marca.

― Sei. Mamãe mediu com a fita de costura. Diz que tem um metro e vinte e tantos.

― Em metro de anão. Ou metro invisível.

Ela olhou-o assustada, desconfiada; e não achando o que responder, desconversou:

― Ih, Doril! Você está bobo hoje!

(...)
(Trecho de Diálogo da Relativa Grandeza, de José J. Veiga, em A Estranha Máquina Extraviada)

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

APAIXONAR-SE

Sabem o que o dicionário diz a respeito da paixão? De curiosidade fui lá ver. Dentre as definições, estava: “Perturbação ou movimento desordenado do ânimo.” Concordei instantaneamente. Sem discussão. É isso e pronto. Nada de processo químico, nada de estado da alma. Nem poeta nem cientista. Não mesmo. Quem tem razão é o dicionário, é claro.

Quer algo mais lógico na face da Terra do que se apaixonar por alguém? É só fazer as contas de quanto tempo acumulamos sentindo falta da outra pessoa, quantas vezes queremos ver, ouvir e sentir essa pessoa; calcular as probabilidades de agradá-la, a rotina sozinho passa a ser menos, menos interessante, menos desejada, menos praticada.


Ah, mas aí vocês irão dizer: não, isso não é paixão, é amor. Certo, certo. Mudou de nome o assunto. Voltemos ao dicionário: “Sentimento que induz a aproximar, a proteger ou a conservar a pessoa pela qual se sente afeição ou atração.” Pronto! Agora sim, não dá mais para se ter certeza de nada. Está tudo perdido. Nós não temos mais salvação. Acabou!

Só resta nos resignar à inexplicável capacidade de sentir e não dizer, apesar de quase todo mundo só acreditar que algo exista se for verbalizado. Só que essa questão vai ficar assim mesmo, sem corpo, sem som, sem nada, como “uma casa, muito engraçada”, que nos abriga sem teto, que nos protege sem porta, que nos conforta sem chão.

"Amo como ama o amor. Não conheço nenhuma outra razão para amar senão amar. Que queres que te diga, além de que te amo, se o que quero dizer-te é que te amo?" (Fernando Pessoa)

**
(Referências: Dicionário Priberam da Língua Portuguesa: www.priberam.pt/A Casa, de Vinícios de Moraes.)

ÚLTIMA PALAVRA


Deixe-me ver seu sorriso,
Depois de anos separados.
Quero de volta aquela vida
E ter de novo seus cuidados.
Deixe-me ver seus olhos,
De cores verdes misturado com azul,
Que envolve meu coração
E traz de volta antiga emoção.

(...)
Agora lhe peço:
Deixe-me vê-la por inteiro;
Te ver caminhar,
Sorrir e cantar,
Sonhar e dormir.
Está chegando minha hora,
Pouco tempo me resta,
Fique ao meu lado,
Cante para mim,
Sorria para mim,
E nesse último suspiro te digo:
Adeus... Este é meu fim...

(Ensaio para a primeira tentativa de escrever um poema de Bella, amiga e colaboradora.)

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

"O CONTO DA ILHA DESCONHECIDA"

(...)
Não valia a pena ter-se preocupado tanto. O sol havia acabado de sumir-se no oceano quando o homem que tinha um barco surgiu no extremo do cais. Trazia um embrulho na mão, porém vinha sozinho e cabisbaixo. A mulher da limpeza foi esperá-lo à prancha, mas antes que ela abrisse a boca para se inteirar de como lhe tinha corrido o resto do dia, ele disse, Está descansada, trago aqui comida para os dois, E os marinheiros, perguntou ela, Não veio nenhum, como podes ver, Mas deixaste-os apalavrados, ao menos, tornou ela a perguntar, Disseram-me que já não há ilhas desconhecidas, e que, mesmo que as houvesse, não iriam eles tirar-se do sossego dos seus lares e da boa vida dos barcos de carreira para se meterem em aventuras oceânicas, à procura de um impossível, como se ainda estivéssemos no tempo do mar tenebroso, E tu, que lhes respondeste, Que o mar é sempre tenebroso, E não lhes falaste da ilha desconhecida, Como poderia falar-lhes eu duma ilha desconhecida, se não a conheço, Mas tens a certeza de que ela existe, Tanta como a de ser tenebroso o mar, Neste momento, visto daqui, com aquela água cor de jade e o céu como um incêndio, de tenebroso não lhe encontro nada, É uma ilusão tua, também as ilhas às vezes parece que flutuam sobre as águas, e não é verdade, Que pensas fazer, se te falta a tripulação, Ainda não sei, Podíamos ficar a viver aqui, eu oferecia-me para lavar os barcos que vêm à doca, e tu, E eu, Tens com certeza um mester, um ofício, uma profissão, como agora se diz, Tenho, tive, terei se for preciso, mas quero encontrar a ilha desconhecida, quero saber quem sou eu quando nela estiver, Não o sabes, Se não sais de ti, não chegas a saber quem és, O filósofo do rei, quando não tinha que fazer, ia sentar-se ao pé de mim, a ver-me passajar as peúgas dos pajens, e às vezes dava-lhe para filosofar, dizia que todo o homem é uma ilha, eu, como aquilo não era comigo, visto que sou mulher, não lhe dava importância, tu que achas, Que é necessário sair da ilha para ver a ilha, que não nos vemos se não nos saímos de nós, Se não saímos de nós próprios, queres tu dizer, Não é a mesma coisa. O incêndio do céu ia esmorecendo, a água arroxeou-se de repente, agora nem a mulher da limpeza duvidaria de que o mar é mesmo tenebroso, pelo menos a certas horas.
(...)

(Trecho de O Conto da Ilha Desconhecida, de José Saramago.)
Está completo no site: www.releituras.com/jsaramago_conto.asp
Não estranhem, o texto é assim mesmo, não segue Norma Culta, quanto à pontuação.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

QUANTO MAIS

Um bom programa no Rio de Janeiro: seguro, de fácil acesso, tem de tudo, desde os caras que pedem esmolas, engraxando ou não o seu sapato, passando pelos que oferecem táxi, cardápios, troca de moedas, até aqueles que fingem não estar vendo nada, porque o que conta mesmo é o fato de estarem trabalhando numa loja super-chique, que vende super-jóias, tudo valioso demais para quem anda de compacto popular.

Esse é o lugar para ir, a qualquer dia da semana, com a família. Logicamente, estava eu por lá, com todos os meus sete filhos, a babá e minha esposa. Estávamos todos ocupando as cadeiras da sala de espera da Polícia Federal. Sala de espera não é bem verdade. Está mais para corredor da morte, mas o que morre é o seu tempo, precioso ou não. Que importa?

Eu, mais 23 famílias, mais umas oito pessoas que foram sozinhas (gente sem visão!), lotávamos o corredor de espera, no Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro. Ali, eram aguardados os números das senhas no painel eletrônico, suspenso sobre nossas cabeças. Meus filhos, e os outros tantos que estavam naquele pedaço, transformavam o ambiente numa creche barulhenta e inquieta. Choro por todos os lados, gritos, manhas, corpinhos jogados ao chão num simulado de convulsões e reclamações, com as perninhas quicando, os braços largados para todos os lados e as irritadiças vozes gritando juntas, cada uma com sua reivindicação. Não é o paraíso? Diz a verdade, você que não tem filhos, e não teve que tirar o passaporte em um lugar assim, está roendo os cotovelos de inveja.

Logo depois da reunião de nossas crianças com o resto das crianças do mundo, tivemos que sair de lá. Fui chamado, recebi o documento aguardado e convidaram-me a deixar o local o mais rápido possível. Ainda tem muito para visitar nos setores de embarque e desembarque, então fomos sem mais demora.

Mês que vem, minha esposa vai pedir o passaporte dela. Já estamos planejando o passeio. Dessa vez, levaremos os nossos quatro sobrinhos. São uns amores. Gargantas jovens, potentes, e idades iguais. São gêmeos! Todos eles. Irmão de sorte o meu. Fabrica em lote e vai economizar um bom dinheiro com festas de aniversários e presentes. Uma vida financeira com investimentos quase que infinitos no atacado.

Vou ver se consigo arranjar mais gente para ir também. Está interessado?

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terça-feira, 11 de outubro de 2011

VOLTE SEMPRE

E brasileiro é um povo que trabalha feliz, sorridente, esbanjando simpatia, mesmo quando em condições difíceis, salários baixos e pouco reconhecimento.

É uma mentira deslavada. Vai lá no Maranhão para ver se você acha esse povo aí. Conta-se nos dedos de uma só mão - de quatro dedos - os que desempenharam um bom atendimento, apresentando qualquer uma dessas “qualidades brasileiras”, durante minha visitinha rápida de cinco dias.

Por que quatro dedos? Não, não estava me referindo a uma das mãos do governo anterior. O motivo é muito mais simples: porque reservo um para o cara que verdadeiramente se esforçou para ser eficiente e cordial em meio aos "profissionais" com quem tive contato. Esse, por ironia, era suíço, então, conta e não conta.

Um bocado de serviços oferecidos, desde a pessoa que guia você pelos caminhos do paraíso, como uma Beatriz mal humorada, até a pessoa que lava seu carro enquanto cai uma tempestade de poeira por cima de tudo; interação com outro bocado de trabalhadores, daqueles que sabem o que fazem, e não fazem, dos que não sabem, e fazem assim mesmo, e derivações dessa combinação; de tudo, ao menos um pouquinho, pode-se ver e sentir como acontece:

― Bom dia, amigo! ― manda o visitante de uma terra chegadinha, logo ali da Bahia, ao entrar no quiosque de um canto praiano de São Luis.

― O que você quer?

Assim mesmo, "na lata", como diriam os cariocas. Está certo. Deve ser bem desagradável trabalhar num calor escaldante, enchendo as mãos de calos no corte dos cocos, andando de lá para cá, servindo mesas e aturando todo o tipo de gente. Mais uma chance para ele:

― Vou querer uma cerveja dessa aqui, por favor. ― diz apontando o cardápio engordurado e cheio de areia.

― Dessa aí não tem.

― E qual você me recomenda?

― Se fosse pra mim escolher, você é quem tava no meu lugar, né, chefe? Volto quando resolver o que quer.

E lá se vai o brasileiro simpático atender outro cliente que acaba de se achegar ao quiosque muito bem localizado, no meio de um tanto de gente de lugares diversos, que vão lá para conhecer a terra bonita e o povo gentil.

― Boa noite. Por favor, o meu aparelho de ar condicionado não quer ligar. Acho que são as pilhas do controle remoto. Pode mandar alguém me trazer outras? ― o pobrezinho tenta mais uma vez, lá no seu quarto de hotel de padrão turístico, segundo o taxista do aeroporto-rodoviária do interior, que só troca os lençóis a cada dois dias. E nem adianta reclamar dos resíduos do hóspede anterior. Dois dias e pronto. Sem conversa.

― Vou mandar separar pilha nova. Mas vai ter que descer e pegar aqui, se quiser.

Certo de novo. Afinal, o rapaz da recepção deve estar atrás daquele balcão, recebendo as mesmas reclamações, fazendo o mesmo trabalho de preencher ficha, atender telefone etc. o dia todo, desde sei lá que horas. Mais uma chance para ele:

― Tudo bem. Vou direto à recepção?

― Não. Até a sala de refeições. As pilhas custam R$33,00.

Tudo muito óbvio, é claro. Eu não disse que era padrão turístico? Vê-se de longe, do 15º andar, para ser mais exato, o caloroso desejo daquela criatura trabalhadora de que o hóspede fique satisfeito e volte mais vezes. “Aguarde um instante que já iremos atendê-lo. Sua ligação é muito importante para nós.”

Tão importante quanto a moeda de um centavo de Real, que na verdade estorva na bolsa e nunca é lembrada. Esse deve ser o símbolo controverso do investimento na boa imagem receptiva de um ponto turístico, dentro do Brasil. É Brasil, gente! Terra de povo que trabalha feliz, sorridente, esbanjando simpatia, mesmo quando em condições difíceis, salários baixos e pouco reconhecimento...

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quarta-feira, 28 de setembro de 2011

3 E VINTE

lá teu sono assisto
em noite serena
da manhã sorriso
cá saudoso acena

(Linhas que viajaram 7750km, enviadas pelo meu namorado, às 3:45 da manhã: penosas 216 horas após beijo de despedida.)


TÍTULO DE ÁLBUM

Viver cada segundo como nunca mais.
Vinícius diz, nós já sabíamos.
Já lembrávamos que há amanhã,
E que vai passado e vira ontem.
O que sobra são marcas na pele,
Histórias efêmeras de dez mil e uma noites,
Sobra tudo o que é importante
Em segundos como nunca mais.
E se vão em bits orgânicos
Para o sonho que alimenta nosso delírio.
Desde o início certo, há o amanhã,
Além do mesmo sempre, e termina
Feito de segundos como nunca mais.
Após segundos marcados,
Segundos descompassados,
Segundos imortais.

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(Resposta da Nina ao namorado-quase-poeta.)

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

DÍVIDA-DIVINA

Imagine Lutero, lá pelos anos de 1500, revoltando-se contra a venda das indulgências pela Igreja Católica e escrevendo as 95 Teses, que, em resumo, questionam a autoridade dos membros da Igreja e a maneira que encontraram de financiar a Basílica de São Pedro em Roma, concedendo por livre e espontânea condição de troca, um perdão por uma esmola.

Isso nos faz lembrar de algo? Pobre Lutero... Como seria agora, aqui pelos anos 2000, com a abundância de produtos e serviços oferecidos pelas inúmeras igrejas espalhadas por todo canto, em troca de uma esmolinha? Vendem-se perdões, milagres de muitos tipos, “puxadinhos” no céu, uma viagem de volta à Nova Terra... São tantos, que não vão caber na minha nem na sua paciência.

Para que o necessitado adquira uma dessas ilusões, usa-se de tudo um tudo: caixas de coletas, contas bancárias, carnês, agentes especializados que vão recolher sua contribuição no endereço de sua residência, do seu trabalho, e dar baixa na sua dívida daquele mês para com o deus de sua crença.

E são muitos os que correm com vontade atrás disso. Vão com tanta fé buscar o que consideram indispensável, essencial, inalcançável por suas próprias forças, que não pensam, nem por um minuto, na inconsistência de uma atitude assim. Pagam o que for preciso para serem felizes, para serem perdoados sem esforço de consciência. É possível tornar-se uma boa pessoa se tiver dinheiro e uma igreja com bons produtos em oferta.

É lastimável que ainda hoje tenha desse tipo de ingenuidade. E já que não se pode lamentar a esperteza, que alguém, um requerente fiel, pare e pense um dia sobre os motivos que impulsionam a troca de uma concessão divina por papel pintado, e perceba o quanto isso é cômodo, superficial e ilegítimo.

Em tempos atuais, em que igrejas são erguidas com a mesma facilidade que se traduzem Bíblias, vamos ainda esperar que haja mais pessoas empenhadas em fazer por elas mesmas o que de fato pode ser feito. Autonomia e coragem para conseguir o que desejam, com esforços reais, de base refeita, de reconstrução sincera das intenções. Uma satisfação merecida não porque pagou, mas porque teve nobreza de espírito. Esperemos.

“E que confiem entrar no céu antes passando por muitas tribulações do que por meio da confiança da paz.” (Tese de número 95)

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sábado, 13 de agosto de 2011

A BATALHA

Na primeira vez, houve muitos estampidos. Consegui me abaixar, porém fui atingido. Pensei estar no Maracanã e gritei todos os palavrões que vieram a minha cabeça. Alguns instantes se passaram e vi que o melhor era esperar a situação se acalmar, para que eu pudesse enfim me aproximar. Nessa hora, quase desisti de enfrentar o inimigo ali esparramado na frigideira, imóvel, aparentemente domado, mas não me dei por vencido. E concluí que enquanto está cru, envolvido em sua casa frágil, ele é considerado um fresco ou inofensivo, porém, para torná-lo frito a chapa literalmente esquenta.

No livro A Arte da Guerra, há passagens dizendo que você precisa conhecer bem o seu inimigo para poder enfrentá-lo. Digamos que pulei essa parte, fui diretamente ao confronto face a face. Animado, coloquei um pano de prato sobre o braço esquerdo (esse seguraria o cabo da frigideira) e a mão direita, munida de "espumadeira", eu usaria como um esgrimista para atingi-lo ― claro que tendo o cuidado de não feri-lo. Estava tudo se encaminhando conforme o meu estabelecido: ovo quebrado, óleo no fogo, braço protegido e arma na mão. Coloquei o ovo na frigideira e habilmente agarrei o seu cabo, como se fosse a manga do quimono de um judoca, tentando a melhor maneira de domínio. Lentamente, com a mão direita, atingi em cheio a parte inferior do inimigo. Respirei fundo. Acredito ter envelhecido 100 anos, pois sentia meu rosto todo em forma de sanfona, mais enrugado impossível.

Na modalidade saltos ornamentais, quanto menos água espalhar, mais perfeito é o salto. Coloquei isso em prática! Com um ipon (golpe perfeito no Judô), consegui vira-lo sem destroçar o seu coração, o que é mais importante. Lembrando que houve estampidos, chiadeira e movimentos bruscos, entretanto, a batalha estava vencida. Digo batalha mesmo, com direito à destruição e muita desordem. A cozinha era uma verdadeira praça de guerra, sujeira para todos os lados e tudo espalhado.

Reconheço que enfrentei um grande oponente, venci a briga quase sem nenhum arranhão. Porém, se tiver quem brigue no seu lugar, fique no comando e mande-os para a linha de frente, pois o inimigo é poderoso e pode causar algumas baixas. Como estrategista, sou solicitado para outras batalhas.

(Autoria de CBS, amigo e colaborador)

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

O QUE SE LEVA

É difícil compreender como algumas pessoas sentem tanta necessidade de homenagear, de forma desesperadamente escandalosa, alguém que não está mais aqui para saber. Pior ainda: às vezes, o tributo vai para uma personalidade que não conheceram de fato, com a qual nunca trocaram palavra, sequer compartilharam qualquer tipo de afeição. Se há algum sentido nisso, deve estar ligado à vaidade, porque, em “intenção de”, pode-se fazer um esforço no próprio pensamento para reconhecer talento, caráter ou bons sentimentos alheios. Mas essa coisa toda de mostrar ao mundo, a todo custo, o quanto me importo, ainda não cabe no meu conceito.

Admito que cada um tenha seu jeito - é uma condição irrevogável, que facilita muito se entendermos e aceitarmos logo. A minha opinião pode alcançar quem concorde, discorde, ou quem simplesmente ache tudo insignificante, numa total indiferença. Particularmente, gosto mais deste último, para casos assim. Duvido muito ser importante o modo pelo qual expresso meus sentimentos em relação à morte de um grande artista, se sinto a ponto de me vestir como, de me expor imitando, de me entupir de palavras para um discurso público armado.

Mais produtivo e prático seriam uns momentos de reflexão. Mortes semelhantes a da Amy Winehouse poderiam nos fazer pensar em como alguns lidam com a vida, enfrentam as dificuldades, cuidam de sua própria existência, e como se vão de um jeito tão estúpido, levadas pela própria ação, à revelia de sua vontade.

A gente não tem dom nem ciência necessários para afirmar se há alguém querendo vir para esse mundo, ou voltar para ele, que seja. Não dá para saber, mas alguns imaginam que sim. Por isso, muitos idealizam a vida conforme uma dádiva a ser valorizada e nunca perdida levianamente. Costumam acreditar que tantos gostariam de outra oportunidade, e parte daqueles que a tem joga fora com prazeres frívolos, atitudes irresponsáveis.

Convenhamos, a luta pela sobrevivência nesse nosso planeta, do jeito que está, é digna de um longa. Em cada esquina, há uma chance em potencial de perdemos a vida, ou boa parte dela. Aí, surgem pessoas que não ligam a mínima, expondo-se com tudo ao que podem e não podem, sem limite. Quando o óbvio acontece, é quase irônico ouvirmos: “Morreu tão cedo. Tinha tanto para oferecer ainda.” Além de ser um pensamento muito egoísta, é também uma irracionalidade.

Não digo que Winehouse, ou outro alguém com a mesma sorte, merecesse. Nenhum de nós deveria se imaginar capaz de fazer julgamentos a respeito de quem merece ou não qualquer coisa. Mas digo que, se essas pessoas não se muniram dos cuidados básicos que eu e você tivemos para ainda estarmos por aqui, essas pessoas só podem estar onde precisam estar. Nada mais.

Pode parecer insensível olhar dessa maneira. Talvez seja. Mas o que está feito, está feito. E não há nada que possamos inventar para desfazer a morte. À parte do que realmente somos, das nossas crenças e convicções, que cada um absorva, a seu modo, em homenagem sincera aos famosos e aos anônimos, a lição considerada mais valiosa. É o que se pode levar: uma lição para nos fazer melhores, em tributo silencioso e único, para quem ainda está aqui e nos é importante.

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segunda-feira, 25 de julho de 2011

SAI DA FRENTE

Você consegue imaginar que alguém seja atropelado por veículo automotor enquanto atravessa uma passarela, em um dos lugares mais populares do Brasil? Se você é brasileiro, é claro que consegue. No Rio de Janeiro, cidade maravilhosa, onde as tampas dos bueiros alcançam 15 metros, num voo vergonhoso de negligência das autoridades, isso é mais que possível, quase que completamente certo.

Outro dia, estava lá um cidadão, com sua pasta de negócios, subindo a rampa de uma das passarelas da Avenida Brasil, para chegar, em segurança, ao seu local de trabalho, que fica do outro lado desse córrego urbano, de leito revolto e poluído. Tinha a cabeça cheia, calculava as mil tarefas do dia para que todas coubessem em oito horas de expediente. Andava apressadamente para não se atrasar, consultando o relógio, prestando atenção ao movimento dos carros, quando de repente...

―Sai da frente!!!

E uma buzina estridente grita junto com a voz do motoqueiro, sem capacete, que vem no sentido oposto, numa velocidade que não se pode chamar de cautelosa. Aliás, pensemos juntos: uma moto, num espaço destinado só para pedestres, a alguns metros de altura, com máquinas assassinas passando lá embaixo... O que poderíamos chamar de velocidade cautelosa numa situação dessas? Mas voltemos ao ocorrido.

O pobre do cidadão quase se joga passarela abaixo nesse momento. Ficou agarrado na grade como um carrapicho, descorado de susto. O treco barulhento passou, sumiu em um segundo, ou dois, nem deu para contar ― as faculdades mentais estavam ocupadíssimas, concentradas na sobrevivência. Meio tonto, solta-se aos poucos das barras de ferro que marcam o lado em que se morre atropelado por uma moto, do lado em que se morre atropelado por qualquer coisa que esteja passando na hora, isso se não morrer da queda. Aos poucos, redescobre como se caminha, um pé, depois o outro, procura a pasta que deixou cair, os pés... Já consegue andar novamente. Apanha a pasta num canto da grade, abatida, toda imprestável.

Desconcertado, revoltado, retoma o passo do atraso. Pela cabeça, não mais o assunto de antes. O que pensava mesmo antes de quase virar estatística? Sim! Não! Esqueceu completamente. Nesse momento, avaliava a possibilidade de voltar para casa e desistir de cumprir aquele dia na sua série de responsabilidades. Mas agora estava no fim da passarela. Desistir significava ter de voltar pelo tal trecho destinado aos pedestres, para que estes não se arriscassem correndo entre os carros na avenida, driblando, como num vídeo game, o perigo iminente. Para quê? Melhor continuar o rumo do trabalho. Sim! Está se lembrando... Tarefas, muitas tarefas, em expediente de oitos horas.

O motoqueiro já vai longe. Resmungando, enchendo-se de razão, reclamando do paspalho que estava lá, no meio do caminho, quando ele, um homem de bem, sem crime nenhum para contar, dirigia-se ao outro lado da Avenida Brasil para resolver um assunto urgente, urgentíssimo: “Essa gente, só porque anda de pastinha na mão e gravata, se acha dona do pedaço. Esse Brasil tá uma zona mesmo.”

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sábado, 16 de julho de 2011

IGUAIS E SEMELHANTES

Um amigo me disse certa vez que o seu relacionamento conjugal era baseado em lealdade e não em fidelidade, pois para ele eram coisas diferentes. Mas é claro que são diferentes. A Língua Portuguesa faz dessas com a gente. Diz que palavras são sinônimas e define sinônimo como a classificação de alguma coisa que tem o mesmo significado que outra. Nem se dissesse que o significado é aproximado estaria sendo coerente. No máximo, podem conter um mesmo princípio básico, como um rochedo e um grão de areia, mas daí dizer que são iguais ou semelhantes em significação é outra conversa.

Não existem duas palavras de mesmo significado para se dizer a mesma coisa. Quando eu digo que algo é bom ou que é legal, estou dizendo a mesma coisa? Todo mundo vê que não. Se fosse para dizer a mesma coisa, diria que algo bom é bom e pronto. Quando escolho a palavra legal, estou estendendo o significado para outras áreas. Legal é gíria e pode ser bem mais divertido do que bom, é mais descontraído, mais comum no discurso coloquial. Já para o bom se tornar não-ruim e divertido ao mesmo tempo, dá mais trabalho.

O fato é: se ficarmos atentos ao que falamos e ao que ouvimos, iremos perceber sutilezas como essas que fazem da Gramática Normativa a coisa mais mal falada durante nosso processo de aprendizagem, e depois dele também — o mundo virtual está aí para comprovar. Quanta ruindade naquelas regrinhas de acentuação! E a separação silábica? É um veneno só. A malvadeza se espalha por todos os verbos e locuções! É um tormento só em olhar!

Mas, em vez de propormos uma trégua, a gente briga. E reclama. Cadê o tal sinônimo perfeito? Está escrito aqui que tem que ser palavra com o mesmo significado que outra ou que outras. E agora? Um relacionamento em que a fidelidade não é fundamental e sim a lealdade vai fazer diferença em Morfologia?  Discutir a respeito de ser verdadeiro sem ser sincero ficará complicado para a Semântica. Faz sentido estar triste sem estar infeliz? Concorda que alguém pode ser agradável sem ser necessariamente simpático?

Usamos a comunicação como achamos melhor para expressar nossos pensamentos e sentimentos. E, ao contrário do que muita gente pode pensar, a Gramática Normativa não dificulta esse mecanismo. Temos que conhecê-la para saber como nos orientar. Só não vale ficar apontando o dedo e culpando o pobre bloco de perversidades. O importante é conseguirmos unir eficácia com o mínimo de boa linguagem. Se tiver como colocar um pouco de estilo, melhor ainda. No geral, funciona assim: a gente cria uma condição confortável a partir do que conhece e entende, e assim tentamos nos fazer compreender. Sem briga.

Está certo, nem por isso fica menos difícil. Os relacionamentos afetivos também não. O meu amigo pode confirmar. Mesmo com uma base substantiva, que ele julga menos complexa, não segue manual nenhum e não cumpre a palavra por definição, o que o torna distintamente semelhante a todos os outros. Só porque as cobranças e os conflitos podem mudar de função sintática, não quer dizer que alguém será mais bem sucedido. Apenas cabe a nós simplificar o que nos complica. E um bom começo é não se alterar mais com a falta de uma definição melhor para sinônimos. Isso é certo! A Gramática fica para nos dar assunto, pois não é por conta de flexões, sintagmas, interjeições ou preposições que fundamentamos princípios ou nosso comportamento. Para a vida, o que conta mesmo é a busca de um significado único, invariável e totalmente conjugável: a Felicidade. Vê só se essa tem sinônimo que se compare!

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sábado, 9 de julho de 2011

CENA 4

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(...)
Cena 4

Orgon, o chefe da família; Cleante, cunhado de Orgon; Dorina, a empregada.


ORGON
Ah! Bom dia, meu caro cunhado!

CLEANTE
Eu estava de saída, e estou feliz em te ver de volta: os campos já não têm tantas flores.

ORGON
Dorina... Meu caro cunhado, espera, por favor. Deixa que, para me tranquilizar, eu me informe sobre as novidades da casa. Tudo correu bem estes dois dias por aqui? O que fizeram? Como vão todos?

DORINA
A patroa teve febre anteontem até a noite, com uma dor de cabeça muito forte.

ORGON
E o Tarfuto?

DORINA
O Tartufo? Vai maravilhosamente bem. Forte e gordo, corado e de lábios rosados.

ORGON
Coitado!

DORINA
De noite, ela ficou muito enjoada e não conseguiu comer nada no jantar, tamanha a dor de cabeça!

ORGON
E o Tartufo?

DORINA
Jantou sozinho, diante dela, e com muita devoção comeu duas perdizes com meio pernil de carneiro ao molho.

ORGON
Coitado!

DORINA
Ela não conseguiu fechar os olhos a noite inteira. Uns calores impediam que adormecesse e tivemos de ficar ao lado dela até o amanhecer.

ORGON
E o Tartufo?

DORINA
Forçado por um sono agradável, foi para o quarto ao sair da mesa, e imediatamente se deitou na cama, em que dormiu tranquilo até a manhã seguinte.

ORGON
Coitado!

DORINA
Enfim, persuadida por nossos argumentos, ela concordou em fazer a sangria, e logo se sentiu melhor.

ORGON
E o Tartufo?

DORINA
Ele ganhou nova coragem, como devia, e fortalecendo a alma contra todos os males, para compensar o sangue que a patroa perdera, bebeu no café quatro copos cheios de vinho.

ORGON
Coitado!

DORINA
Os dois estão bem, agora; e vou ter com a patroa imediatamente, para lhe contar o interesse que o senhor demonstrou por sua convalescença.

(...)
(Trecho da comédia francesa de Molière, O Tartufo ou o Impostor, encenada pela 1ª vez em 1664, em Versalhes)

quinta-feira, 7 de julho de 2011

COTILÉDONES

Em uma noite assim, não precisamos da habitual fogueira no terreiro. É só esperarmos a chegada dos vizinhos mais próximos, a Dona Nena e o Seu Moraes. Eles moram longe, não sei bem o quanto, mas canso de tanto andar no meio do mato quando vamos visitá-los. Ela é calada, tem sotaque engraçado, parece que mistura nossa língua com a dos índios. Já ele é falador, um linguajar rápido, meio embolado, “matraca mais do que a nêga do leite”, como diz mãe.

Meus irmãos e eu gostamos de brincar de esconder tesouro quando está claro assim. Podemos ficar horas correndo de um lado para outro, procurando uma boneca feita com sabugo de milho que serve como nossa pequena fortuna. Mas quando nosso pai se acomoda ao lado dos nossos vizinhos, paramos para ouvir. Ele é quem tem as melhores histórias, tem o melhor jeito de contar, olha para cada um para prender ainda mais nossa atenção. Nós ficamos sentados, formando uma roda que, de início, é animada com piadas e passagens engraçadas: “... foi quando Dona Zefinha perguntou, olhando pro rádio: ‘ô seu Lauro, cumé qui si faz pra colocá essis homi tocadô aí dento dessa caxa?’”. Ou então, com perguntas como: “De qual lado o cachorro tem mais pêlos?”.

Eu não me arrisco em uma resposta. Interessam-me as histórias de terror. “Todas reais”, dizem. Algumas são contadas de geração em geração; outras, vividas pelos próprios narradores. São essas, autenticadas pela presença da personagem principal, que dão mais medo. Nem mesmo explicações científicas posteriores amenizam a sensação sobrenatural, como a que contaram semana passada sobre o fogo-fátuo, a tal núvem-fantasma que seca os animais da floresta.

Hoje, há uma promessa cheia e clara para se falar sobre criaturas da noite, que vivem de tirar a vida do outros, que correm atrás de meninas e meninos rebeldes, desobedientes a papai e mamãe. Monstros, cujas enfermidades e os tormentos porque passam, vieram de maldições. Maldições de família. E meu pai não deixava mesmo se perder nenhum desse detalhes:

― Lá no Crato, há uns dez anos, aconteceu um caso de lobisomem. O povo até hoje fala. Desconfiavam do finado Vicente Fino. Escutem...

A palavra “finado” me dava um arrepio na espinha. Aceitava com menos aflição os seus sinônimos, achava até que amenizavam o estado cadavérico do defunto. Era a cena da tensão apreensiva que nesse instante começava em nosso filme verbal:

― ...Zé de Bidias me contou que o finado Vicente, nessa época ainda menino, levava o almoço para o pai, lá na roça onde trabalhava. Ia sempre reclamando do que havia comido, quase sempre um punhado de farofa de pão feita só com gordura do toucinho. Um dia, a alguns passos de onde deveria chegar, parou. Sentou-se próximo a um arbusto seco, tirou o prato da rodilha e comeu os poucos pedaços de couro de porco que lá encontrou, sem pensar no que fazia, só queria saciar a fome que ainda sentia e saber como era o gosto daquilo. Seguiu o caminho arrependido, pensando no que diria a seu pai e resolveu mentir, dizendo que a mãe só mandou o baião-de-dois porque um homem almoçou lá na casa deles. Ela estava grávida de sete meses. Morreu assassinada pelo marido com sete facadas. Mas, na agonia da morte, amaldiçoou o filho Vicente, prenunciando que, ao se tornar homem, uma besta iria tomar seu corpo: “você, filho ingrato, vai correr as sete noites de lua redonda atrás de carne, igual a um bicho feroz e faminto, tendo o uivo como alívio de sua dor. E assim será durante sete anos”.

Pronto! Ninguém mais sai para ir ao banheiro sozinho. A casa à luz de candeeiro, cheiro de querosene e sombras para todos os lados é o nosso labirinto de medo o resto da noite. O pote de barro com água fresca fica distante da rede, precisamos atravessar um corredor largo e comprido. Todo o tipo de criatura aparece nas paredes e os sons de fora completam o cenário plantado em nossas mentes. O jeito é dormir com sede.

Na manhã do dia seguinte, será uma briga. Certamente faremos xixi na rede de novo. Mãe tentará nos convencer a não ouvir mais essas histórias com ameaças e chantagens. Em vão. Sem televisão, livros, rádio ou qualquer outro acessório moderno para transformar crianças travessas em anjinhos de pedra, acabamos descobrindo o que ser e como ter pela imaginação. Bastam alguns contadores de histórias em nosso terreiro, os melhores de nossa infância, e estaremos fascinados mais uma vez, olhos e ouvidos apurados, imóveis, esperando, mudos, o próximo número de mágica.

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sábado, 2 de julho de 2011

"ALCANCE O IMPOSSÍVEL"

“A energia das ondas... a resistência das pedras... a força do vento... Para superar seus limites, é preciso acreditar que eles não existem... Ironman, a nova fragrância masculina da Avon” (Divulgação no site Memória da Propaganda).

O ponto de vista é tudo, diria Nietzsche. Um princípio argumentativo que viabiliza a apresentação de ideias convincentes e bem organizadas pode conseguir mais do que promover a verdade e a propagação do conhecimento. Sim, todo o conhecimento busca a verdade. Mas, a exemplo do que observamos hoje em dia, principalmente nas relações comerciais, em que a lógica consiste em ganhar dinheiro, tem-se a verdade através dos lucros. E estar em oposição à verdade não é bem estar na mentira.

Para uma multinacional, que emprega milhões em divulgação do seu produto artificial, que polui e que pode causar câncer, a premissa de que há pontos negativos em sua atividade é verdadeira? Claro que não. Há de se convencer de que seu produto, se bem consumido, bem utilizado, não prejudica em nada. Mas aí, a empresa vai investir no preparo de seus consumidores? Também não. Provavelmente isso fica para depois, caso esteja perdendo terreno. Simplesmente uma “carta na manga”, que auxilie na jogada de marketing ideal para se manter o rio do bom faturamento em plena enchente.

Atualmente, “a arte de usar a linguagem para comunicar de forma persuasiva e eficaz” está em quase tudo a nossa volta – o “quase” vai ficar aí para o “tudo” não se sentir dono da verdade. A propaganda é um bom exemplo de como estamos evoluindo nesse campo. Em campanhas cada vez mais engenhosas, a propaganda está, inclusive, nas coisas em que deveríamos naturalmente perceber como essenciais. Mas ela está lá, num outdoor bonito, grande e colorido, lembrando que somos seres humanos e que devemos respeito à vida, usar o cinto de segurança, não jogar lixo em vias públicas; também diz que você deve fazer um curso de línguas, deve ter um carro novo, mais potente, tão potente que nunca poderá testar isso, ou vai se matar ou matar alguém; deve contratar um serviço de segurança, um plano de saúde que pode de fato tratar você como gente; que deve votar democraticamente, pagar os impostos, cobrar seus direitos e precisa comprar, comprar e comprar.

Pois então, vamos lançar um novo produto para acabar com insetos. Faz mal à saúde das pessoas, mas quem precisa saber? Os insetos realmente morrem, de verdade, eles não fingem nem ficam com super-poderes. É eficaz, não mancha, não deixa cheiro, e ainda faz com que o inseto contaminado mate todos os seus comparsas. Mas não vai matar o seu gato, caso resolva fazer do inseto um lanchinho. Pode ser que fique muito doente, mas não dá para matar. Isso é exagero.

É a manipulação da propaganda que faz dela um retrato do que podemos fazer com a honestidade e com as boas intenções. E aí, quando de fato aparece um caso desinteressado, quem é que acredita? Por que não confiar que alguém, que vai ganhar muito dinheiro lançando um produto, não está de jeito nenhum pensando no lucro e sim na felicidade das pessoas? E o que acha da boa intenção de um cientista ao descobrir vestígios de vida em outro planeta? Ele divulga isso pensando no bem estar da humanidade ou na compra de sua imortalidade na história? Você acreditaria? Pois deveria. Devemos ter boa fé, mesmo que desconfiados. Para isso, existe nossa razão, nossa capacidade de refletir sobre os argumentos bem construídos, e nos perguntarmos sempre se essa lógica tenta nos construir ou nos fazer de bobos.

Temos o poder de usar o nosso ponto de vista. Isso ainda não é proibido nem se cobra taxa de utilização. Seja para considerarmos a veracidade de um evento científico ou a intenção de um anúncio simples de tintura para cabelos, que nos acostumemos ao bom hábito de usar o cérebro. Dessa maneira, poderemos alcançar o limite de nosso bem estar, experimentando a vantajosa sensação Ironman, porém, conscientes de que é totalmente possível.

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domingo, 19 de junho de 2011

DISCURSO EM HOMENAGEM

Era o ano de 1996. Bill Clinton se reelegeu presidente. O Brasil trouxe dos Jogos Olímpicos em Atlanta quinze medalhas. Fernando Henrique aprovou leis contra o fumo em ambientes fechados. E foi também o ano de minha formatura. Todas as outras coisas que aconteceram ficaram em algum lugar, mas isso veio comigo e é assim que me lembro desse ano.

Foi um dia irreal, como um daqueles que parecem passar em câmera lenta. Os preparativos, a agitação das pessoas, os detalhes... Tudo girando numa lâmpada incandescente gigante cheia de óleo aromático. Eu e minha família nos arrumando ao cair da tarde e nos dirigindo para o local onde seria realizada a cerimônia de formatura.

Olhava para os meus filhos e meu marido sentados a minha frente, nas cadeiras reservadas. E nós, a turma de formandos, juntos, sentados do outro lado. Era um orgulho imenso ver que minha família estava lá para me ver, testemunhava o que por vezes nem eu acreditava: eu havia conseguido.

Senti como se toda a minha vida tivesse valido a pena. Tudo o que passei desde a primeira lembrança de minha infância até aquele momento. Não sabia separar em meu coração a felicidade por ter realizado dois sonhos distintos que alimentei desde sempre, ter uma família e ter um grau de conhecimento que me permitisse entender melhor o meu pequeno mundo. Talvez porque os dois desejos estavam ali na minha frente, vivos, como um casamento perfeito entre azedo e doce.

Foi uma comemoração muito simples, assim como eram simples minhas ilusões, meus ideais, meus pensamentos.

Minha vida.

Venho de família humilde, numerosa e enraizada no nordeste brasileiro. Eu, a sexta filha de um total de onze gestações bem sucedidas, fui, durante todo o tempo, a criança mais magra e menos desenvolvida fisicamente de nossa casa. Com os ossos salientes e cabelos muito compridos, só tinha em mim curiosidade, sonho e um mundo de imaginação.

Meus pais eram pessoas rigidamente tradicionais, para não dizer, antiquados. Acreditavam nos antigos valores morais, na obediência inquestionável, na religião e na concepção de que mulher nasceu para servir ao lar. Por isso, mesmo meu pai sendo um homem instruído, para os padrões locais, não me permitia frequentar a escola, nem ao menos permitia a alfabetização, para que eu não escrevesse aos namorados ou perdesse tempo com futilidades sociáveis. Isso tudo era uma inutilidade, “uma perda de tempo aprender algo que você não vai usar. Uma mulher não precisa disso”. Eu, como mulher, como um ser inferior, só igualada às fêmeas parideiras que tínhamos no curral, com a serventia exultante da procriação e da espera pela morte, não escapava à lógica de seu raciocínio. Para ele, as prendas domésticas é que equipavam uma mulher com o que havia de melhor em relação à satisfação de viver. Era assim que eu tinha de ser feliz, com as delimitações de uma dona de casa analfabeta, alienada e cheia de filhos.

Mas, como eu ainda não percebia esse pensamento tão maciçamente solidificado na cabeça de meu pai, quando fiz dez anos, pedi para que ele me deixasse estudar. Nem cheguei a entender o porquê dele ter me negado. Mal conseguia acompanhar o que ele queria dizer com “filha minha não vai ficar mal falada” – mal falada porque vai aprender, vai ter instrução? Na minha ingenuidade, isso não fazia o menor sentido. Mas eu já sabia, já compreendia que não estar na escola iria me deixar inferior, iria me fazer menos quanto mais eu crescesse. Já sentia que isso me faria uma pessoa solitária, cada vez mais presa na minha ignorância.

Percebendo meu desejo de aprender e minha frustração diante de um “não”, um tio de minha mãe, que se chamava Ageu, aproveitando as poucas ausências de meu pai, ensinou-me o nome das letras. De um jeito todo particular, começou a explicar como formar sílabas e, consequentemente, a formar as palavras. Usava, como material didático, jornais velhos que serviam de embrulho das compras.

O tio Ageu já era um senhor de cabeça branca quando começou a vogar a meu favor, insistindo com meus pais que me liberassem para frequentar a escolinha. Não teve sucesso. Assim, seguiu minha alfabetização clandestina até o dia em que minha mãe descobriu. Nesse dia, meu tio e eu fomos castigados. Ele foi enxotado de casa como um cachorro vadio e eu apanhei que nem gente grande.

Eu costumava apanhar por muitos motivos, apanhava mais ainda quando não tinha um. Minha mãe instigava meu pai a me bater por qualquer coisa que ela achasse que eu tinha feito; por qualquer intenção maligna que ela achasse que eu escondia. Mas tive um apoio. Minha madrinha conversava muito comigo a respeito desse tratamento que eu recebia. O que poderia ter se transformado em ódio e revolta, transformei em mágoa profunda. Era uma mágoa amordaçada e dolorida, que me maltratava também, mas hoje sei que foi o melhor que pude fazer por mim. Eu não tinha outra boa chance de crescer como uma pessoa aceitável no meio social.

Agora estou aqui, relembrando o dia em que finalmente consegui. Nem posso desejar que meus pais estivessem presentes para dividir o orgulho. Capaz de estarem me maldizendo por ter insistido na desobediência. Precisei passar dos 40 para ser uma filha completa em má conduta. Precisei passar dos 50 para entender como minha vida andou por aí comigo atrás insistindo, apanhando, mas nunca ficando no meio do caminho aos prantos. Continuava, dava um jeito de chegar. E acho que ainda será assim por mais um tempo. Nenhuma idade escapa do anseio de se continuar a caminhada. Aprendendo e evoluindo.

(Conto da mãe da Nina, especialmente confeccionado para este blog)

sexta-feira, 10 de junho de 2011

LIÇÃO DE CASA

As crianças refaziam, a perder as contas, o tal círculo que serviria de base para a figura final. Muitos traços tortuosos, por causa da pouca prática nesse tipo de aventura, deixavam dúvidas sobre o que intencionavam desenhar.

A professora orientava que, depois de unir as duas pontas da linha, uma “perninha” começaria a nascer pelo lado indicado na lousa e, assim, teríamos a primeira letra do nosso alfabeto, o que me desanimava bastante, já que teria de presenciar o nascimento de cada uma das partes de cada uma das vinte e seis letrinhas. Sentia-me como um obstetra alterado.

Ao fim do exaustivo exercício, precisava conferir e elogiar o trabalhinho de meus assistidos, Janice e Léo. Um casalzinho simpático que não se suportavam (e quem suportaria?) e que se tornaram minha mais doce pena, por ter invadido a sala dos professores para descobrir quem era o namorado da professora de francês. É que ela é a única da escola que merecia minha pirraça adolescente. Hormônios descontrolados e imaturidade no mesmo recipiente não combinam, vamos ser sinceros.

Janice desenhou uma coisa parecida com um biscoito velho, de aspecto estragado; pois, o que deveria ser a “perninha” da letra, mais denunciava a impressão do mau cheiro oscilante que provinha da lateral e se dirigia para cima, como que para alcançar o seu próprio narizinho, tão pertinho da mesa.

Léo, que na verdade se chama Levir, mas herdou o apelido de uma tia que é doida pelo cantor sertanejo, que não é sertanejo, Leonardo, desenhou uma argola meio gelatinosa. Uma obra surreal, certamente. O traço me fez lembrar o de um grande arquiteto famoso que não me lembro o nome agora. Espero que o menino não tenha melhorado nesse ponto.

Todos os dias, depois da minha aula, durante seis meses, eu precisaria estar na cola dessas duas criaturinhas adoráveis, de comportamento mais do que ativo. A intenção era me fazer perceber o quanto se pode aproveitar a criatividade em desenvolvimento próprio e de outras pessoas. Isso foi o que me disseram. Mas o que percebi na época foi o quanto pode ser chato e cansativo um comportamento inconveniente, quando dirigido a mim; e o quanto eu era parecido com esses dois, apesar da distância de idade.

Certo dia, ajudei-os a pintar um cartaz fixado no corredor que transmitia uma mensagem sobre o aniversário da escola. Só não chegou a ser ato de vandalismo porque a mensagem comoveu os funcionários. As crianças desenharam corações e sóis. Eu tentei desenhar o rosto deles.

Passamos a ser três cúmplices de traquinagens durante dois meses, pois o tempo de monitoração não durou o que foi previsto. Acho que repensaram essa coisa de quem aprende o quê e viram que, enquanto eu me “endireitava”, as crianças se corrompiam com minhas ideias descabidas.

Não cheguei a ver o nascimento das outras letrinhas e, ao final daquele ano, não vi mais aqueles pestinhas. Voltei a andar com minha turma de despreocupados, a falar como um rinoceronte gago e a compartilhar os interesses típicos de minha idade. Também comecei a investir num novo plano para chamar a atenção da professora de francês.

Mas nem tudo foi perdido. Naquele período foi plantada uma sementinha que me levaria a um futuro diferente do que eu pensei quando criança – eu queria ser delegado. Acabei percebendo, bem mais tarde, o quanto eu era bom em continuar a ser criança e o quanto elas, as crianças, me entendiam. E usei isso para me tornar o que sou hoje: um multiplicador de histórias.

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